00. Quem é essa mulher?
por Sérgio Capparelli e Wu Di

Quem é essa mulher que foge apressada do balanço ao ouvir passos no jardim, mas que na porta ainda se volta, cheia de timidez, como a respirar o aroma das ameixas verdes? E quem é essa mulher que ousa deixar os pavilhões onde as mulheres tecem a solidão e que se afasta, para balançar num pátio que lhe é proibido? Quem, essa mulher, na belle époque de Kaifeng, antes que existisse a França e os franceses, e que vive numa China que se torna complexa, com uma elite ávida por literatura, teatro e música? Quem, essa mulher, impedida de se submeter aos exames imperiais, devido aos preconceitos de gênero, mas que é reconhecidamente capaz? Quem é ela que aprende fora das academias oficiais, com preceptores particulares, e que domina, como poucos, a pintura, a caligrafia, a música e a poesia?

 

Quem, essa grande poetisa que, como outras mulheres, escrevia poemas menosprezados pelos círculos literários, simplesmente por terem sido escritos por mulheres, e, assim, “irrelevantes, ausentes da maioria das antologias e tratados, indicando pouca possibilidade de intervenção no processo literário – por exclusão – como o caráter invisível da produção existente?” (Universitat, 2006). E quem é ela que amplia os limites de ser ela mesma, num carrossel masculino?


Quem, essa mulher, numa sociedade que iniciou a produção de livros impressos, num tempo em que a Europa nem imaginava que isso seria possível, quase quatro séculos antes de Gutemberg? Quem essa mulher que viveu o advento do livro nos mosteiros budistas e na educação recebida dentro das próprias famílias? E que vivia em um lugar onde, em 1020, o governo passou a doar terras e livros à população, criando bibliotecas para 250 mil estudantes (Fairbank, 2006:100) e quando a Europa nem sonhava com isso fosse possível? Essa mulher, renascentista antes do Renascimento, num país com 120 milhões de habitantes no fim do século XII e numa cidade chamada Kaifeng, uma das mais desenvolvidas do mundo?  Quem essa poetisa da Dinastia Song, que junto com seu marido Zhao Mingcheng (1081-1129), colecionava livros e objetos artísticos?

Quem, essa mulher, desabusada às vezes, solitária quase sempre, a cantar os amores lícitos, a solidão, a saudade, o ciclo da vida e das sombras, os pequenos e os grandes acontecimentos nos vôos em V dos gansos selvagens? A que nasceu de uma família de intelectuais em Jinan, em Shandong, e que depois de casada lê livros feitos de um novo material chinês para o mundo: o papel? Livros publicados através de tipos móveis ou clichês de madeira, também uma invenção do Reino do Meio?

Quem, ela? E com que chancela, ardor ou ousadia, participa dos saraus literários da bela capital Kaifeng de 600 mil habitantes, onde o perfume em pó espalha-se ao vento no girar das rodas das carruagens, perto do lago e dos pavilhões quentes ao sol? Qual foi seu aprendizado da solidão, na sua condição de esposa chinesa de um letrado que passa fora a maior parte do tempo? E que após a morte dele, a caminho Jiankang, expressa a sua dor:

O dia passa, estou sem ânimo nenhum,
Nem mesmo para pentear meus cabelos.
Suas coisas estão aqui,
Ele se foi, o mundo morreu.
Se tento falar, desabo em choro.
Dizem que é primavera em Shuangxi.
Ir lá é meu desejo,

Mas tenho medo de que o pequeno barco,
Não suporte o peso da minha dor. 

Talvez, imersa na perda, ela não dê suficiente atenção às notícias de que os tártaros já atravessaram a fronteira e avançam para tomar Kaifeng. Ela, agora sozinha, não sabe que esses mesmos invasores vão incendiar a capital. Talvez ela saiba das notícias da corte em fuga para Hangzhou, onde será instalada a Dinastia Song do Sul. Mas ignora certamente que antes que possa fazer alguma coisa, os bárbaros do norte vão incendiar sua casa, transformando em cinzas o trabalho de pesquisa de tantos ano, além de 20 mil livros, bronzes, trabalhos de caligrafia e inscrições em pedra, num grande catálogo.   

Essa mulher só pode ser Li Qingzhao, que nasceu na cidade de Jinan, na província de Shandong, em 1084, tornando-se a maior poetisa da história da literatura chinesa e que, ao morrer em 1151, já era conhecida por sua obra, mesmo que apenas 43 poemas-ci tenham nos chegado, juntos com mais 17 poemas Shi, de estilo clássico.         

A história dessa mulher explica a história da China e a história da China explica a história dessa mulher. Uma época que chega ao seu apogeu com a Dinastia Song do Norte, depois da prolífica Dinastia Tang, que funda, de certa forma, a poesia chinesa, com Li Bai, Du Fu e Wang Wei e Bai Juyi. E que se completará com Li Qingzhao, a mesma que havia deixado o balanço diante da aproximação do estranho e com malícia queria sentir o aroma das ameixas verdes, e que na segunda parte de sua vida sofre todo tido de dificuldade:

O lótus amadureceu as sementes, as folhas murcharam,
O orvalho da madrugada lavaj uncos e aguapés.
As gaivotas e as garças na areia dão as costas,
Desgostosas, porque sabem que vamos partir muito cedo.


Um novo tempo para a China. Um novo tempo para Li Qingzhao. E um novo caminho para a poesia chinesa. Nessa segunda fase, ela publica poemas mais maduros, voltados para o cotidiano, recriando com palavras simples a solidão dos estores fechados, num conflito entre o tempo físico a colidir com o vivido, o primeiro lento demais, e o segundo veloz, no branco dos cabelos.


A condição feminina


Os poemas de Li Qingzhao falam da condição feminina numa época feudal. Não a de uma mulher comum, cuja ignorância era até então considerada como uma virtude, mas de uma menina que fazia o aprendizado da vida numa família de intelectuais, que conhece a poesia, a caligrafia, a história da arte e a música. Era nesses círculos de literatos que a Corte ia recrutar uma burocracia confuciana, capaz de criar o primeiro serviço público eficiente, com representantes escolhidos pela competência em concursos nacionais, provinciais e locais, que poderia corresponder grosso modo aos estudos de pós-graduação numa universidade de prestígio mundial. Sim, de prestígio mundial porque a China acreditava ser o centro do mundo. E estava, em muitos aspectos das ciências e das artes, muito mais avançada que o Ocidente.

No entanto, da mesma forma que no Ocidente, a mulher era marginalizada e só os homens tinham o direito de participar dos exames imperiais. Um intelectual da época, Su Xun, conta que tinha dois filhos e que os dois fizeram concurso para poderem exercer cargos oficiais e passaram com distinção, tornando-se os dois, mais tarde, poetas de prestígio. Su Xun, contente com o êxito dos dois filhos homens, entristecia-se com a impossibilidade de sua filha, Su Xiaomei, poder prestar exames e tornar-se, ela também, um funcionário imperial. Caso não houvesse esse obstáculo, dizia ele, seriam três letrados de sucesso na família.

Li Qingzhao, que foi além de limites impostos às mulheres, podia deixar o gineceu e se mostrar no pátio onde corria o risco de ser vista por um estranho. Mas a ousadia terminava aí. Ao ouvir passos, ela deixava o pátio, não sem antes, maliciosamente, se voltar para deixar claro que queria respirar o aroma das ameixas ainda verdes. Mais tarde, sim, torna-se uma grande poetisa.

Poucas mulheres, como Li Qingzhao, ousaram participar da vida intelectual. Geralmente os trabalhos intelectuais femininos eram desdenhados, não em si mesmos, mas por conotarem atividade reservada às cortesãs, elas, sim, hábeis no canto, na dança e na poesia. Mas também elas objetos exclusivos para o preenchimento do ócio masculino nos pavilhões de prazer. Yan Rui, uma cortesã, escreveu no século 12:

Eu não gosto do jogo do amor
Mas meu karma da vida anterior me fez cortesã.



A leitura de outros poemas de amor da época desmente, por outro lado, uma versão da perfeita submissão da mulher diante dos homens. Um poema anônimo da Dinastia Ming, no século XV, reproduzido por Joel Cornuault (1999:15) atesta essa insubmissão de forma irônica:

As estrelas no meio do céu nunca vão se igualar à claridade da lua
Como um bando de corvos nunca se igualará a uma só fênix
E meu marido, como ele pode se comparar à beleza de meu amante?
Não estou aqui dizendo que sua beleza seja rara no mundo, mas ele é charmoso,
Meu corpo faz companhia ao meu marido,
Mas meu coração está voltado para o meu amante.

Ou então, Madame Wei (cerca de 1050), da mesma época de Li Qingzhao, reproduzido por Barnstone e Chou (2005:254):

O cão está latindo lá fora
Tenho certeza de que meu homem chegou.
Desço as escadas calçando meias
Bêbado está ele nesta noite, meu inimigo.
Ajudo-o a entrar em nosso ninho de cortinas,
Mas ele se recusa a tirar a roupa.
Ele não se aguenta. Que assim seja,,
Melhor do que dormir sozinha.

Outras ainda, mesmo antes da Dinastia Song, gozaram de grande reconhecimento pelo que escreviam. Wu Zetian e Shangguan Wan’er, que viveram durante a Dinastia Tang (618-907) são dois exemplos.


Tempo vivido e tempo poético


O tempo em que vive Li Qingzhao é uma relação estranha, que ora se precipita, ora se imobiliza. Oura é fera, ora, presa. E quando se volta, já se foi na clepsidra. É um tempo com um fluxo objetivo, de Newton, criado como se fosse um elemento natural, uma colina, uma planície, independente das pessoas que o vivem. Um tempo que não é o de Einstein, enfim, que tem o tempo como forma de relação. (Elias, 1998, p. 39).

 

Esse tempo, que ela crê objetivo, cria tensões com o seu tempo interior. Ela gostaria que a areia na clepsidra caísse mais depressa, para que mais depressa fosse embora a sua dor. E diante desse tempo que não passa, ela cria relações, através da memória, relembrando o tempo acelerado da corte. Ou o tempo afetivo ao redor do fogo em que lia poemas para Zhao Mingcheng e o ajudava a catalogar as inscrições pesquisadas em pedra ou metal.

Esse trabalho conjunto de pesquisa artística, de dupla autoria, foi publicado mais tarde em 30 volumes, com o título Jin Shi Lu. Traz uma catalogação das inscrições encontradas em sinos, copos, bronzes, trípodas, urnas, stelas e discos de pedra. Já Zhao Mingcheng a ajudava na composição de seus poemas, até morrer, em 1029. A partir de então sua vida mudou completamente, passando a viver nas lembranças dos dias antigos. Mas seu coração desabava, como no poema “sheng sheng man”:

Eu tateio à esquerda, tateio à direita.
Frio, se me distancio, quente, se me aproximo,
Meu coração, entre tantas sombras, erra pálido e sombrio.
O calor súbito cede ao frio que vem interrompê-lo.
Difícil agüentar, não consigo,
Depois de dois ou três copos e vinho,
Como, na noite, resistir a esse suplício?

Nesse entrecruzar de tempos diferentes, o tempo inexorável da história, que vai lhe deixando marcas, e que a faz errar pelo sul da China, sem nada, a não ser os volumes que tinha ajudado Zhao Mingcheng a escrever e suas poesias, aquelas da idade da inocência, aquelas da idade madura e da desolação, e, finalmente, as poesias do desespero em cujos interstícios a morte espera, em sombras.

E a primavera como eu, a envelhecer.

A esse tempo aberto, sucede-se um tempo mais contido, portanto. Minucioso. Que se mostra nos detalhes. Li Qingzhao começa a se enclausurar. Cria a rotina de uma vida sozinha, por não encontrar mais o seu lugar no mundo. Muito sugestiva é a figura da seu quarto, das cortinas e da balaustrada, sempre em conflito ou em cumplicidade com o que muda fora dela, na contradição da clepsidra, que objetiva o tempo, e as estações do ano, que lhe servem de referência, ou ainda as flores que murcham, e ninguém é capaz de impedi-lo. A contradição de uma clepsidra lenta e de uma vida rápida, dela à espera de cada primavera, visitas às ramagens do sul, para saber se as flores já desabrocharam, ou recostada numa balaustrada divisória, que poderia levá-la ao tempo social, que ela quer evitar a todo custo, reclusa na memória. E ali ela fica, com restos da primavera, que não se sabe da flor de canela, não nomeada no poema, ou ela mesma:

Entre a cortina de seda puxada para baixo
E a balaustrada que a protege,
Sem ajuda, ela conserva o que ainda resta da primavera


É esse tempo que contrasta com o da memória de uma época que tinha transcorrido veloz na capital do Império do Meio:

Houve um tempo em que os anos passavam velozes,
Em dias de encantamento:
As mangas impregnadas de perfume de incenso,
O chá servido no canto da lareira.
Saía para as festas em um barco-dragão ou com cavalos soberbos
Puxando carruagens em tumulto pelas estradas,
Sem temer vento forte ou chuvas torrenciais.

Foi-se esse tempo. E ela agora sai da cama e vai à varanda, apóia-se na balaustrada para detectar um resto de primavera, o perfume das flores machucadas, o outono tardio, certa de que esse tempo não voltará mais. A esse ardor antigo de se jogar da vida, o retraimento e o medo.

Cabelos ao vento, molhados de bruma,
E esse medo de sair para a noite,
Melhor me esconder atrás da cortina da janela
E ouvir os risos e as conversas que chegam de fora.


Quando muito, vai à balaustrada. Ou, mata o tempo, tarde da noite, brincando com as chamas da vela. E nos dois casos, uma escala temporal a nos dizer que faz parte de um processo irreversível: “assim, dizemos que os anos ou o tempo “passam”, quando, na realidade, estamos falando do caráter irreversível de nosso próprio envelhecimento (Elias, 1998:157). É isso que acontece com Li Qingzhao. Quase tudo o que ela diz representa a sua vida? Não estarão as palavras impregnadas de sentidos a contrapelo? No caso de Li Qingzhao, parece que não, seus poemas são apenas uma constatação dolorosa de que a ruptura do fluxo temporal breve vai ser suspenso pela falta de alguém capaz para narrá-lo.



Poesia do amor

Muitos lembram que Li Qingzhao canta os amores lícitos. De certa forma, contrasta com outro tipo de poemas da época, em que amores ilícitos podiam se tornam tema de criações de cortesãs, que geralmente tinham uma cultura mais refinada que a da média das mulheres.
O amor de Li Qingzhao por Zhao Mingcheng e dele por ela era um grande amor dentro do casamento. Viviam sonhos e trabalhavam juntos para realizá-los. Ela conta no posfácio do livro que publicou com ele que viviam sempre sem dinheiro e às vezes tinham de empenhar as próprias roupas para comprar pinturas, inscrições que seriam depois catalogadas, vasos e objetos de arte. O acervo reunido junto dava para encher dez salas de sua casa. Essa riqueza contrastava com as refeições frugais e as roupas simples. Às vezes, contou ela, faziam disputas literárias entre si, compondo poemas.

A verdade é que Li Qingzhao e Zhao Mingcheng podem ser considerados como um casamento exemplar pelos padrões da época e mesmo agora, se colocado em perspectiva. Ambos eram filhos de ricas famílias e durante a infância e adolescência puderam ter todo o conforto. Estudaram em boas escolas ou tiveram preceptores.

Mais tarde formaram um casal com respeito e interesses comuns, freqüentando livrarias, museus, vivendo com intensidade o momento cultural de Kaifeng. Os poemas dessa fase expressam profundo amor um pelo outro. Quando ele é nomeado para um posto em outra cidade - ela não pode acompanhá-lo - sua poesia expressa a dor da separação e a espera de seu regresso.
Depois da morte de Zhao Mingcheng, esse amor vai ser preservado na forma de lembranças, que se abrem no papel na forma de poemas. De fato, a morte de Zhao Mingcheng de tifo, perto de Jiankang, quando ia assumir um novo posto oficial, a deixa transtornada. Ao mesmo tempo, ocorre a invasão dos tártaros vindo do norte. E Li Qingzhao erra pelo sul da China, à procura de um lugar para morar, sozinha e sem dinheiro, até se instalar numa pequena localidade entre Hangzhou e Shaoxing.

Agora ela conhece seus limites, e quando o vento do oeste agita as cortinas, descobre-se ali, “delgada como a haste do crisântemo”. E numa paisagem, quase sempre engolfada pela neblina, ela se pergunta:

Neste meu vestido de brocado,
Folhas de lótus verdes e douradas desbotam.
A mesma roupa, a mesma estação,
Mas se foi, para sempre se foi o tempo
Em que ele me apertava em seus braços.

Além dessa saudade, de tempos passados, evoca as lembranças do lugar onde nasceu. A fuga para o sul e a morte de quem tanto gostava significam quebra e mudança. Junto com essas perdas, outra, que a aflige, a do lugar onde nasceu, como no poema escrito aproveitando a ária Buda Bárbaro:

(...)
Depois de um sono leve, o frescor me envolve,
Mas já murcha a flor da ameixeira nos meus cabelos.
Quanta saudade de minha terra natal!
Como esquecê-la, a não ser embriagada?



Estilo


Só se pode falar no estilo poético de Li Qingzhao quando levarmos em conta o estilo literário da época.Devido às limitações do espaço, recordemos apenas que durante a Dinastia Tang (618-907) muitos poetas começaram a criar letras para antigas melodias, geralmente canções populares antigas de fora do Império do Meio. É interessante observar que um dos primeiros poetas e dos mais conhecidos a fazê-lo foi Li Bai, que nasceu na Ásia Central, onde hoje está situado o Quirguistão.

Como a melodia pré-existia, variava apenas o número de linhas, conforme a canção, sua extensão, e mesmo outras exigências da própria melodia de acordo com os padrões tonais e rítmicos, número de caracteres, métrica e rimas. Esse tipo de poesia – poema-ci torna-se muito popular durante a Dinastia Song (960-1279).

 

Não deixa de chamar a atenção o fato das novas letras para essas canções trabalharem temas como o amor e cortesãs e outros aspectos da vida cotidiana, como o vinho ou os prazeres da mesa. E não deixa de ser igualmente interessante que essa época mostrou, de maneira inequívoca, um novo modelo divulgação da poesia dentro da sociedade, principalmente depois que Su Dongpo (1036-1101) libertou o poema-ci da estrutura rígida, em termos de temas e estrutura poética.

Jaosheng Wang diz que Li Qingzhao viveu no tempo em que o poema-ci “como gênero literário tinha chegado à mais alta perfeição, com a emergência de duas escolas, diferentes no estilo e no tom: o estilo romântico vigoroso e expansivo e o estilo romântico elegante e contido” (1989). Para o autor, não existe nenhuma dúvida de que Li Qingzhao havia adotado o estilo romântico elegante e contido, trabalhando temas como o amor, separação, dentro de uma matriz melodramática que aparece também na prosa. O outro estilo ci é menos intimista, interessando-se pela paisagem exterior, geralmente rurais, e também acontecimentos passados, sendo Dong Po e Xin Qiji seus representantes mais conhecidos.

Ao adotar o poema-ci como forma de expressão poética, Li Qingzhao restringia sua liberdade criativa, devido aos moldes rígidos a serem seguidos. Por outro lado, falar que ela seguia o modelo elegante e contido, pode, em termos mais amplos, ser considerado uma tautologia, já que as características dessa tendência são buscadas, no mais das vezes, em sua própria produção poética. Em outras palavras, ela não integra a tendência, apenas escreveu poemas com características que fizeram escola. E sua criatividade vai além: a poesia deve a ela o Yi´an - em chinês, Yi´an Ti, em que Ti significa estilo - descrevendo aspectos femininos, geralmente de mulheres inteligentes, a partir de seu cotidiano. Li Bai, Du Fu, Su Dongpo ou Bai Yui já tinham ou iriam cantar esse cotidiano em versos, mas pela primeira vez uma mulher ousou fazê-lo, trazendo para o leitor esse mundo desconhecido e até então desprezado.

Por outro lado, os estudiosos costumam dividir a obra poética de Li Qingzhao em duas fases, de acordo com sua vida, ou seja, antes e depois de seu casamento com Zhao Mingcheng, sendo que essa segunda fase compreende o período em que fugiu e se instalou ao sul, perto de Hangzhou, até o final de sua vida, solitária e amargurada. Acreditamos que essa divisão pode ser enriquecida, ao ser relacionada com a temática de seus poemas e a localização espacial do eu poético na geografia dos versos.

Assim sendo, na primeira fase, a autora está num espaço aberto, fora da vida reclusa reservada tradicionalmente às mulheres. Sua cabeça fervilha de emoções novas, o mundo se oferece numa bandeja e a deslumbra, o contato íntimo com a natureza a deixa apaixonada. Em resumo, ela está zonza por causa do vinho, dentro de um barco, se bem que esse vinho possa ter sido destilado pela própria vida. Ao remar, maravilhada, penetra cada vez mais entre juncos, aguapés, e principalmente lótus em flor. Sufocada de tanta beleza, ela irrompe na margem, espantando garças e gaivotas, “como se fosse um sonho”.

Nunca me esquecerei daquela tarde no pavilhão à beira do rio.
Tontos de tanto vinho, não achávamos o caminho de volta.
E zonza ainda, a felicidade retardava o nosso barco,
Enquanto avançávamos no verde denso dos lótus em flor,
Até irrompermos na margem, espantando garças e gaivotas.


Na segunda fase de sua produção poética, esse deslumbramento inicial dá lugar à desolação, depois da morte de seu marido e da fuga desordenada para o sul. Se antes o eu poético encontrava-se num espaço aberto, dentro de um barco, remando entre os lótus em flor, ou então a poetiza dizia viver dias de encantamento, com as mangas impregnadas de perfume de incenso, chá servido no canto da lareira e carruagens em tumultos pela estrada, na segunda ela vive uma vida na varanda, tendo diante de si uma balaustrada - que a impede de sair para o espaço público. De lá ela avista uma sucessão de morros, pavilhões escondidos na neblina, o frio que ainda persiste apesar do fim da primavera, a fragrância das pétalas caídas ou a ausência desse perfume depois de varridas as flores, e o desejo de voltar ao passado num pequeno barco, mas desistindo, por fim, temerosa de que esse pequeno barco não conseguisse suportar o peso de sua dor.

Dizem que já é primavera em Shuangxi.
Ir até lá é meu desejo,

Mas tenho medo de que o pequeno barco,
Não suporte o peso da minha dor.


Mais no fim de sua vida, seus poemas têm a marca da solidão e do envelhecimento. Aliás, o poema citado anteriormente, “Primavera em Wuling”, bem como “Inebriada à Sombra das Flores”, são desse período. No entanto, o primeiro aparece na forma de uma lembrança de tempos felizes e o segundo, com um recuo espacial e clausura, pois o eu lírico deixou também a varanda e se escondeu no quarto, com as cortinas fechadas, enquanto a vida prossegue lá fora:

É a festa alegre, a festa do Duplo-Nove,
Com a cabeça recostada no travesseiro de jade
E atrás da cortina de tule, sinto arrepios
Com esse frio do meio da noite.

Nas duas fases, o material utilizado nos versos não muda muito. Há sempre um contato íntimo com a natureza, que se explica, parcialmente, por uma sociedade ainda rural: vinho, chá, flores, muitas flores, as quatro estações, gansos selvagens, gaivotas, garças, sol, lua e vento, nuvens ou neblinas. No entanto, não basta fazer inventário de materiais, porque eles são apenas indícios. Uma releitura indicará que nesse grande tempo cíclico, de primavera-juventude, verão-idade adulta, outono-envelhecimento, e inverno-morte, a flor de canela ou as ameixeiras em flor adquirem novos sentidos, pois na primeira são reais, na segunda, sofrimento e lembranças de tempos dourados. E nas duas fases, a elegância dessa grande poetiza, que em vez de mostrar, sugere, como uma fragrância que chega ao olfato e exige que todos os outros sentidos se ponham em movimento para descobrir de que flor ou lembrança ele exala.

A tradução


Muitas pessoas dizem que poesia só existe na língua em que foi escrita e descartam qualquer possibilidade de sua transposição para outra língua. Mais difícil, pensamos, seria então traduzir do original chinês para o português os poemas-ci, completos, de Li Qingzhao, deixando de fora apenas os 17 poemas-shi, clássicos, não tão considerados em termos literários.
Mesmo sabendo dessas dificuldades, nos empenhamos para levar ao leitor de língua portuguesa esses poemas que espelhavam um momento particular da China e de Li Qingzhao, como uma ponte estendida no tempo e no espaço. Na verdade, esse trabalho foi fruto inicial de curiosidade intelectual e, posteriormente, paixão. 


Nesse início não existia uma parceria. Um dos tradutores tinha ido morar em Pequim em 2005, para trabalhar numa agência de notícias, e tinha se colocado como objetivo aprender chinês, para ter acesso aos produtos culturais do país. Nessa época, bem como agora, o mercado literário estava em ebulição, com o fim da revolução cultural (1966-1976) e com a abertura para o exterior em 1989, além do crescimento econômico de mais de 10% ao ano nos últimos 30 anos.
Surgiu mais tarde a pareceria. Wu Di gostava de Li Qingzhao e aprendia português. Essa parceria durou quase dois anos e tornou-se desafiante, na medida em que a produção de Li Qingzhao era colocada em perspectiva ou o resultado era comparado com outras traduções. A maior preocupação era fazer uma tradução que respeitasse o original, mas que, ao mesmo tempo, fosse inteligível para um leitor do mundo atual.

Reconhecemos que muito se perdeu da riqueza dos poemas-ci de Li Qingzhao, em imagens, referências históricas e culturais, ritmo, rima ou tonalidades, que trazem ao original algo impossível de ser reproduzido.E este livro que apresentamos agora, Poemas-ci completos de Li Qingzhao, primeira tradução brasileira, bilíngüe, traz os 43 poemas-ci da autora que chegaram até os dias de hoje, mais 13, cuja autoria lhe é atribuída.

 

 

Bibliografia
 
BARNSTONE, T. e CHOU, P. The Anchor book of Chinese poetry. NovaYork, Anchor Books, 2005.
COURNUAULT, J. Nostalgie de Wou-ling.  Bordeaux, Editora Pierre Mainard, 1999.
ELIAS, N. Sobre o tempo. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.
FAIRBANK, J, GOLDMAN, M. China, uma novahistória. PortoAlegre, Editora LPM, 2006.
JAOSHENG, Wang The Complete Ci-poems of Li Qingzhao: A New English Translation, in http://www.sino-platonic.org/complete/spp013_li_qingzhao.pdf, acessado em 5 de janeiro de 2008.
LI QINGZHAO. Oeuvres poétiques complètes de Li Qingzhao, traduzidas do chinês por Liang Paitchin. Paris, Gallimard, 1977.
LI QINGZHAO. Les fleurs du cannelier, traduzido do chinês por Zheng Su, interpretada e apresentada por STOCES, F. Paris, Ed. Orphée/ La Différence, 1990.
SPENCE, J. Embusca da China moderna. Quatroséculos de história. São Paulo, Companhia de Letras, 2000.
UNIVERSITAT Pompeu Fabra. Li Qingzhao: una excepció en la literatura xinesa del període imperial, texto produzido pelaEscola d’Estudis de l’Àsia Oriental em 2006, documento eletrônico disponível em 


17/07/2009 10:59




01. DIAN JIANG CHUN
Mancha escarlate nos lábios

Cansada, deixa o balanço,
Limpa suas mãos delicadas
Como uma flor frágil coberta de orvalho.
Um leve suor embebe sua roupa.

À
vista do estranho, no fundo do jardim,
Com meias de seda, o grampo de ouro escorregando dos cabelos,
Cheia de timidez, ela foge.
Mas na porta entreaberta, volta-se,
Como se quisesse respirar o aroma das ameixas verdes.


点绛唇
 
蹴罢秋千,
起来慵整纤纤手。
露浓花瘦,
薄汗轻衣透。

见有人来,
袜铲金钗溜,
和羞走。
倚门回首,
却把青梅嗅。
 


06/01/2008 18:53




02. RU MENG LING
Como um sonho

 

 Ontem de noite, com a chuva e o vento forte.
O
sono não conseguiu dissipar minha embriaguez.
Eu pergunto então àquela que enrola a cortina
E
ela  responde, o gerânio continua igualzinho.
Ela sabe?
Sabe
mesmo?
Se reparasse, veria
que o verde estaria mais denso e o vermelho, mais tênue.




 

 如梦令

 
昨夜雨疏风骤,
浓睡不消残酒。

试问卷帘人,
却道海棠依旧。

知否?
知否?
应是绿肥红瘦。
 


06/01/2008 10:02




03. RU MENG LING
Como um Sonho

 

 


Nunca me esquecerei daquela tarde no pavilhão à beira do rio.
Tontos de tanto vinho, não achávamos o caminho de volta.
E
zonza ainda, a felicidade retardava o nosso barco,
Enquanto avançávamos no verde denso dos lótus em flor,
Até irrompermos na margem, espantando garças e gaivotas.



 

 

如梦令

常记溪亭日暮,
沉醉不知归路。

兴尽晚回舟,
误入藕花深处。

争渡,
争渡,
惊起一滩鸥鹭。
 

06/01/2008 10:11




04. YU JIA AO
O orgulho entre os pescadores

 

 

Na neve, se anuncia a primavera,
A
flor da ameixeira enfeita com sua graça o cristal dos ramos.
Rosto perfumado, ela oferece, no que entremostra, um perfil gracioso,
Como no limiar da sala
A
mulher de banho tomado e de vestido novo.

Talvez a natureza esteja consciente
Dessa
lua tão brilhante.
Nós que apreciamos juntos esse cálice dourado,
Não recusemos a embriaguês,
Pois essa flor é incomparável.




 

 

渔家        
 
 
 
雪里已知春信至
 
寒梅点缀琼枝 腻。
.
香脸半开旖旎
.
当庭,玉人浴出新妆洗。
 
 
造化可能  有意
 明月玲珑地。
共赏金尊沉        
绿蚁
莫辞醉,此花不与群花比。

06/01/2008 10:15




05. YUJIA AO
O orgulho entre os pescadores

 

 

O céu tocava as ondas ainda com o véu da manhã.
As
estrelas pareciam seguir a dança de mil velas.
Eu acreditava ter reencontrando em sonho o palácio celeste.
Nisso o
Criador, atencioso,
Quis
saber onde levava o meu caminho.

A
estrada ainda é longa e sinto que a noite vem caindo!
Em vão, aprendi a compor poemas,

Mas são poucos e a poucos agora encantam.
Nas
alturas Peng, o pássaro fabuloso, estende as asas*.
Não pára agora, vento!
Estufa as velas desse barco para que ele me leve ao país dos imortais.

 
 


 

 

渔家傲

天接云涛连晓雾,
星河欲转千帆舞;
彷佛梦魂归帝所,
闻天语,
殷勤问我归何处。

我报路长嗟日暮,
学诗漫有惊人句;
九万里风鹏正举,
风休住,
蓬舟吹取三山去。
 


06/01/2008 10:24




06. HUAN XI SHA
Lavar a Areia do Riacho
Depois do sonho

 

 

Não deixe que se encha esse cálice de vinho âmbar
A
dor me deixa zonza, bem antes de me embriagar,
O
badalar de um sino ao longe ecoa na brisa da tarde.

Meusonho acabou e o perfume do incenso se dispersa.
O
pequeno grampo de ouro está frouxo em meus cabelos.
Desperto e
me descubro fitando a rubra flor da vela!



浣溪沙

莫许杯深琥珀浓,
未成沈醉意先融,
疏钟己应晚来风。

瑞脑香消魂梦断,
辟寒金小髻鬟松,
醒时空对烛花红。
 
 


06/01/2008 10:29




07. HUAN XI SHA
Lavar a areia do riacho
A primavera tardia

 

 

Na janela vazia, o pátio com flores quase pálidas da primavera,
Ao
lado do estore fechado, as sombras se adensam.
Toco cítara cravejada de jade no silêncio da varanda.

A nuvenzinha
que surge no cimo dos montes apressa o entardecer.
A
brisa e a chuva fina brincam com os farrapos da névoa
Que as  
flores da pereira murchem, nada consegue impedir.



浣溪沙

小院闲窗春己深,
重帘未卷影沈沈,
倚楼无语理瑶琴。

远岫出山催薄暮,
细风吹雨弄轻阴,
梨花欲谢恐难禁。


06/01/2008 10:33




08. HUAN XI SHA
Lavar a areia do riacho

 

 

Festa da Comida Fria*, dia claro de primavera.
No porta-incenso de jade, a fumaça de àloe sobe em espiral.
Depois do sonho, procuro meu grampo de cabelo dourado atrás do travesseiro.
As
andorinhas ainda não voltaram e nos divertimos com o jogo das flores e das ervas.
As
ameixeiras nas margens do rio secaram e os salgueiros soltam painas.
Cai a
tarde e a chuva fina molha os balanços no jardim.
 
 
 
 
*festival cai no início do terceiro mês do calendário lunar, correspondendo aproximadamente ao começo de abril pelo calendário gregoriano, quando o fogo era proibido e era consumida comida fria.
 


浣溪沙

淡荡春光寒食天,
玉炉沈水袅残烟,
梦回山枕隐花钿。

海燕未来人斗草,
江梅已过柳生绵,
黄昏疏雨湿秋千。
 


06/01/2008 10:38




09. QING QING ZHAO MAN
Festejar a lentidão da manhã clara

 

 


Entre a cortina de seda puxada para baixo
E a
balaustrada que a protege,
Sem ajuda, ela conserva o que ainda resta da primavera.
Leve e cheia de graça, ela permanece,
Em toda a sua inocência e candura,
No
instante em que se foram as outras flores,
A
brisa e o orvalho vão encontrá-la sempre fresca e vestida de aurora,
Com o charme que fascina.
Ela desafia o vento e zomba da lua,
Brincando
com o Príncipe do Oriente*.

Ao
leste da cidade,
E
nos caminhos dos campos do sul,
Perto do lago e dos pavilhões quentes ao sol,
De
manhã até a tarde, rodam as carruagens perfumadas.
Mas ao fim do belo festim,
Quem ainda derramará fragrâncias na poeira**?
Prefere
mais o Palácio da Claridade***,
Onde desabrocham os botões voltados para o sol****.
O
cálice de ouro cai, mas restam ainda as velas,
Não importa se o crepúsculo vem chegando.

 

 

 
*Príncipe do Oriente é o deus do Sol que se invoca na primavera.
**Eses
dois versos evocam a história de Shi Hu que usurpou o reinado dos Zhao anteriores (de 335 até sua morte em 349). Ele levava uma vida de fausto e de luxo. Durante as festas, ele ordenava que fossem jogados ao vento perfumes em para perfumar a poeira
.
***
Um dos grandes palácios construídos na Dinastia
Han.
**** O
sol, nesse verso, simboliza o imperador.
 





庆清朝慢

禁幄低张,
雕栏巧护,
就中独占残春。
客华淡伫,
绰约俱见天真。
待得群花过後,
一番风露晓妆新。
妖娆艳态,
妒风笑月,
君。
 
 
 
东城边,
南陌上,
正日烘池馆,
竞走香轮。
绮筵散日,
谁人可继芳尘?
更好明光宫殿,
几枝先近日边匀,
金尊倒,
拚了尽烛,
不管黄昏。
 


06/01/2008 10:45




10. YI JIAN MEI
Um ramo da ameixeira



一剪梅

红藕香残玉簟秋。
轻解罗裳,
独上兰舟。
云中谁寄锦书来?
雁字回时,
月满西楼。

花自飘零水自流。
一种相思,
两处闲愁。
此情无计可消除,
才下眉头,
却上心头。
 


06/01/2008 10:50




11. ZUI HUA YIN
Inebriada à sombra das flores

 

 

Névoa fina ou densas nuvens e os dias tristes que se arrastam.
A cânfora preciosa dissolve-se no animal dourado*.
É a
festa alegre, a festa do Duplo-Nove**,
Com a cabeça recostada no travesseiro de jade
E atrás da cortina de tule, sinto arrepios
Com esse frio altas horas.
.

Eu bebo vinho à tardinha, diante do jardim.
Ah,
esse perfume suave que exala de minhas mangas.
Não diga que dentro de mim não devia sentir medo
E
quando o vento do oeste agita minhas cortinas
Eis me aqui, tão delgada como a haste do crisântemo.
 




醉花阴

薄雾浓云愁永昼,
瑞脑消金兽。
佳节又重阳,
玉枕纱橱,
半夜凉初透。

东篱把酒黄昏後,
有暗香盈袖。
莫道不消魂,
帘卷西风,
人比黄花瘦。
 

06/01/2008 11:29




12. DIE LIAN HUA
A Borboleta Apaixonada pela Flor

 

 


Minhas lágrimas mancham de maquiagem meu vestido de seda.
O canto quádruplo de Yangguan*
Eu vou cantá-lo milhares e milhares de vezes.
Por mais que se prolonguem os montes, uma hora eles têm fim.
A
chuva cai fina sobre o pavilhão solitário

Meu coração em desassossego por causa da despedida!
Eu nem sei, quando ele foi embora,
Se
meu cálice tinha muito ou pouco vinho.
Melhor confiar nossas cartas aos gansos selvagens.
Donglai
não é tão longe como Penglai.
 

 *Yangguan é umcanto de adeus. Consiste emcantartrêsouquatrovezesumpoema de Wang Wei (grandepoeta Tang, que viveu entre 701 e 761) que tem os seguintesdoisúltimosversos: Esvazie aindaumcopo de vinho, eute peço,/A oeste de Yangguan, vocênão terá maisamigos.



蝶恋花

泪湿罗衣脂粉满,
四叠阳关,
唱到千千遍。
人道山长水又断,
潇潇微雨闻孤馆。

惜别伤离方寸乱,
忘了临行,
酒盏深和浅,
好把音书凭过雁,
东莱不似蓬莱远。
 

06/01/2008 11:34




13. DIE LIAN HUA
A borboleta apaixonada pela flor

 

 

Chuva tépida, vento calmo, início do degelo.
Os
olhos, folhas do salgueiro: o rosto, flores da ameixeira,
se sente o coração da primavera que palpita.
O
bom vinho, os poemas, com quem compartilhá-los?
Minhas lágrimas lavam a maquiagem: o grampo em forma de flor pesa mais.

Acabo de
pôr meu vestido cerzido com fios dourados.
Minha cabeça inclinada sobre o travesseiro
Esmaga a
pluma do fênix de meu grampo.
Sozinha, abraço minha tristeza: nenhum sonho belo ou claro!
Altas horas, me distraio brincando com a luz da vela.




蝶恋花

暖日晴风初破冻,
柳眼梅腮,
已觉春心动。
酒意诗情谁与共,
泪融残粉花钿重。

乍试夹衫金缕缝,
山枕斜欹,
枕损钗头凤。
独抱浓愁无好梦,
夜阑犹翦灯花弄。
 
 


06/01/2008 11:38




14. DIE LIAN HUA
Uma Borboleta Apaixonada pela Flor

 

 

Noite sem fim. Pouco prazer, muita dor.
Estava
em Chang’an*, mas dentro de um sonho,
E
não conseguia encontrar o caminho.
Queria dizer que a primavera deste ano tem cores  belas,
Flores e lua compondo sombras e brilhos.  

Um jantarzinho às pressas, poucos copos e pratos,
Mas vinho fino de ameixas ácidas:
Bem como o agridoce do meu coração!
Bêbada, não ponha flor nos cabelos! Flor, deixa de rir!
E a
primavera como eu, a envelhecer.


*Chang’an, situada na região atual de Xi’an, no Shaanxi, foi capital da China, especialmente nas dinastias Han e Tang. Sem dúvida, Li Qingzhao fala aqui de Chang’an, antiga e célebre capital para exprimir seu apego ao norte da China, perdido no nomento em que a poetisa, idosa, compôs este poema.
 


蝶恋花

永夜恹恹欢意少,
空梦长安,
认取长安道。
为报今年春色好,
花光月影宜相照。

随意杯盘虽草草,
酒美梅酸,
恰称人怀抱。
醉里插花花莫笑,
可怜人似春将老。
 
 
 
 


06/01/2008 14:00




15. NIAN NU JIAO
Pensando na bela Nujiao

 

 

Pátio vazio,
Chuva fina e oblíqua ao vento.
Será
que fechei todas as portas?
Uns
mimos, esses salgueiros floridos.
A Festa do Duplo-Nove* bem próxima.
O
tempo instável me incomoda com seus caprichos,
Mas depois do vinho e do poema escrito com rimas raras,
Acordo bem disposta.
Os
gansos selvagens** passaram todos:
A
quem confiar os segredos do meu coração?

Em cima, no pavilhão, dias ainda frios da primavera.
As
cortinas todas fechadas.
Nenhuma
vontade de me inclinar na balaustrada.
Sinto
frio, o incenso queimou e acordo de um novo sonho.
Difícil me levantar, tamanha é a tristeza.

Dos
rebentos novos dos plátanos,
Evapora-se o orvalho da manhã.
Flanar na primavera, ah, delícia!
O
sol vai alto. A bruma evapora.
Olhemos mais uma vez para saber
Se hoje vai fazer tempo bom.
 
 
 
 
*A festa do Duplo Nove é o nono dia do nono mês, quando as pessoas iam fazer piquenique nas colinas. Parece que essa festa foi criada em memória de Jie Zitui, que preferiu morrer queimado, mas não desceu da montanha Mian, para responder ao apelo tardio do duque Wen de Jin, na época da Primavera e Outono, entre 636 e 628.(Liang Paitchin).
 
**Na tradiçãopoética chinesa, são os gansos selvagens que trazem ou levam notícias.




念奴娇
 
萧条庭院,
又斜风细雨,
重门须闭。
宠柳娇花寒食近,
种种恼人天气。
险韵诗成,
扶头酒醒,
别是闲滋味。
征鸿过尽,
万千心事难寄。
 
楼上几日春寒,
帘垂四面,
玉栏干慵倚。
被冷香消新梦觉,
不许愁人不起。
清露晨流,
新桐初引,
多少游春意!
日高烟敛,
更看今日晴未?


06/01/2008 14:05




16. FENG HUANG TAI SHANG YI CHUI XIAO
Lembrança da flauta tocada no Terraço de Fênix

 

 

No porta-incenso as cinzas estão frias.
E a
colcha púrpura é um mar revolto sobre a minha cama.
Eu me levanto sem o mínimo desejo de me pentear,
O
toucador está coberto de .
As cortinas fechadas, banhadas pelo sol que vai alto,
Têm
medo de reavivar a minha dor
Tantas
coisas quero dizer, mas aqui fico, muda!
Emagreço,
não pelo vinho
Nem pela tristeza do outono.

Acabou-se,
tudo acabou,
Dessa
vez ele se foi para sempre.
Mil vezes, dez mil vezes pedi,
Mas não consegui impedir que partisse.
Foste para Wuling*, longe de meus carinhos.
O pavilhão perdido na neblina**.
água sob minha janela testemunha minha tristeza,
E
cada vez que me volto,
Na
direção do caminho que por onde partiste,
Aumenta minha tristeza
 

 

 
 
 
Wuling é o nome de uma cidade do atual distrito de Changce, em Hunan
** O
Pavilhão de Qin é o pavilhão onde vivia a princesa Longyu. Segundo a lenda, ela tocava música tão bem, com seu esposo, Xiao Shi, exímio na flauta, que um dia, um fênix, encantado com a música, veio até o terraço, oferecendo-se para levá-los ao céu e à imortalidade. (Liang Paitchin).



凤凰台上忆吹箫

香冷金猊,
被翻红浪,
起来慵自梳头。
任宝奁尘满,
日上帘钩。
生怕离怀别苦,
多少事、
欲说还休。
新来瘦,
非干病酒,
不是悲秋。
 
 
 
 
休休!
这回去也,
千万遍阳关,
也则难留。
念武陵人远,
烟锁秦楼。
惟有楼前流水,
应念我、
终日凝眸。

06/01/2008 14:13




17. NAN GE ZI
Canto do Sul

No alto, brilham as estrelas e a Via Láctea.
Embaixo, os estores e as cortinas baixadas.
O frio da noite penetra no meu travesseiro
De lágrimas molhadoEu me levanto
E abro o colchete que prende minha roupa.
 
Neste
meu vestido de brocado,
Folhas de lótus verdes e douradas desbotam.
A
mesma roupa, a mesma estação,
Mas se foi, para sempre se foi o tempo
Em que ele me apertava em seus braços.


南歌子

天上星河转,
人间帘幕垂。
凉生枕簟泪痕滋,
起解罗衣聊问、
夜何其?

翠贴莲蓬小,
金销藕叶稀。
旧时天气旧时衣,
只有情怀不似、
旧家时!
 

06/01/2008 14:17




18. TIAN ZI CAI SANGZI
Ária de Sangzi com mais palavras

Diante de minha janela, quem plantou essas bananeiras?
Elas enchem de sombras o pátio interno
Elas enchem de sombras o pátio interno
Maspromessas de paz nas dobras de cada folha.
 

Meu coração infeliz, chuva caindo, três da madrugada.
Gota a gota e sem parar, ela cai.
Gota a gota e sem parar, ela cai.
Triste e sozinha, não consigo me erguer para escutá-la.


 

 

添字采桑子
 
窗前谁种芭蕉树?
阴满中庭,
阴满中庭,
叶叶心心,
舒卷有余情。
 
伤心枕上三更雨,
点滴霖霪,
点滴霖霪,
愁损北人,
不惯起来听。


06/01/2008 14:20




19. SU ZHONG QING
Confiar seus pensamentos íntimos

Ontem à noite, tonta, eu me desmaquiei tarde.
A
flor de ameixa pende agora de meus cabelos em desalinho.
O
aroma do vinho interrompe meu sono de primavera.
E
meu sonho vai se afastando, impossível trazê-lo de volta

Quando todas as vozes se calam,
A
lua desce.
Por trás de uma cortina verde de salgueiros.
Aperto entre meus dedos as flores murchas
E aproveito o
que resta de seus perfumes,
Assistindo à
lenta passagem do tempo.




诉衷情

夜来沈醉卸妆迟,
梅萼插残枝。
酒醒熏破春睡,
梦断不成归。

人悄悄,
月依依,
翠帘垂。
更挪残蕊,
更拈馀香,
更得些时。
 


06/01/2008 14:24




20. ZHE GU TIAN
O céu é das perdizes
Solidão

O sol frio e triste chega à minha janela
O plátano deve estar odiando a geada da noite passada.
Depois do vinho de ontem para acabar com a tristeza prefiro o chá amargo
Desperta do sonho, o perfume do incenso me faz bem.
 
O outono chega ao fim.
Mas o dia ainda é longo.
Antes, Zhong Xuan ficava triste, por não satisfazer seus desejos.
Melhor me embriagar diante do cálice, como antes,
Para não frustrar os crisântemos amarelos do jardim.


鹧鸪天 
 
 
 

寒日萧萧上锁窗
梧桐应恨夜来霜。
酒阑更喜团茶苦                       
梦断偏宜瑞脑香。


秋已尽日犹长
仲宣怀远更凄凉。
不如随分尊前醉,
莫负东篱菊蕊黄。


06/01/2008 14:27




21. ZHE GU TIAN
O céu das perdizes Flor de Canela

De um tom claro, quase pálido, respira doçura,
Longe das carícias do coração ou das mãos.
Seu aroma seduz. Desenha esmeraldas ou rubis,
Pois sabe que é, dentre todas, a mais bela.

As
flores da ameixeira morrem de inveja
E o
crisântemo se intimida diante de ti.
A
balaustrada vai admirar-te, no ano que vem, rainha do outono.
E os
poetas, como podem ser insensíveis ao teu charme,
A
ponto de te omitirem? Essa omissão me espanta!
 


鹧鸪天

暗淡轻黄体性柔
情疏迹远只香留。
何须浅碧深红色
自是花中第一流。

梅定妒
菊应羞
画栏开处冠中秋。
骚人可煞无情思
何事当年不见收。
 
 
 


06/01/2008 14:31




22. PU SA MAN
O Buda Bárbaro

 

se foram os gansos selvagens, silêncio e nuvens claras.
Diante da janela, cai a neve. Do incenso, a fumaça sobe retilínea.
O
grampo do cabelo brilha à luz da vela.
Com um fetiche gracioso, promessa de felicidade.

Os
ruídos matinais apressam a clepsidra
E as
cores da aurora tornam pálida Altair.
É difícil apreciar as cores da primavera,
Com o sopro ainda gélido do vento oeste.


菩萨蛮

归鸿声断残云碧,
背窗雪落炉烟直。
烛底凤钗明,
钗头人胜轻。

角声催晓漏,
曙色回牛斗。
春意看花难,
西风留旧寒


06/01/2008 14:36




23. PU SA MAN
O Buda Bárbaro

Doce brisa e tênue sol, primavera a caminho.
Com a roupa de tecido duplo, quanta alegria!
Depois de um sono leve, o frescor me envolve,
Mas murcha a flor da ameixa nos meus cabelos.
 

Quanta saudade de minha terra natal!
Como esquecê-la, a não ser embriagada?
Na
hora de dormir, queimei áloe no porta-incenso.
Foi-se dele a
embriaguez, ficou a do vinho.



菩萨蛮
 
风柔日薄春犹早,
夹衫乍著心情好。
睡起觉微寒,
梅花鬓上残。
 
故乡何处是?
忘了除非醉。
沉水卧时烧,
香消酒未消
 
 
 


06/01/2008 14:51




24. YU LOU CHUN
O Pavilhão de Jade na Primavera

O vermelho tenro, a ponto de romper os botões.
Vamos
ver se as ramagens do sul floresceram ou não,
Não sei o que elas nos reservam de perfume, essas flores,
Mas, aos meus olhos, fervilham de emoções.

Pelo meu lado, perco o viço e murcho atrás da janela.
E,
com tanta decepção, entristeço e evito a balaustrada.
Se quiser, venha
beber um pouco comigo,
Sei bem o que o vento pode nos reservar amanhã.


玉楼春

红酥肯放琼苞碎,
探著南枝开遍末?
不知酝藉几多时,
但见包藏无限意。

道人憔悴春窗底,
闷损阑干愁不倚。
要来小看便来休,
未必明朝风不起。

06/01/2008 14:54




25. YUAN WANG SUN
Queixar-se ao Príncipe

Vento sobre o lago, marolas, imensidão sem fim.
Outono tardio, poucas flores e perfumes.
Brilho das águas, cores belas dos montes, doçura íntima.
Poderia ficar falando disso o tempo todo.

O
lótus amadureceu as sementes, as folhas murcharam,
O
orvalho da madrugada lava juncos e aguapés.
As
gaivotas e as garças na areia dão as costas,
Desgostosas,
porque sabem que vamos partir muito cedo.


怨王孙
 
湖上风来波浩渺
秋已暮、
红稀香少。
水光山色与人亲,
说不尽、
无穷好。
 
莲子已成荷叶老,
清露洗、
苹花汀草。
眠沙鸥鹭不回头
似也恨、
人归早。
 
 


06/01/2008 14:57




26. YUAN WANG SUN
Queixar-se ao Príncipe

Fim da primavera ao redor do palácio.
Diante das portas, no fundo dos pátios,
A
grama vinga ao da escada que dá no ancoradouro.
Nenhum ganso selvagem no céu da tarde.
Do
alto do pavilhão, quem longe poderia levar minha mensagem?
Ah,
esse meu sofrer!

De uma
grande paixão, imensa dor,
Mas como fingir que ela não existe ?
Estamos de
novo no tempo da comida-fria,
Na
rua e nos campos, quantos balanços!
A
noite silencia e a lua inclina-se
Para iluminar as flores das pereiras.


怨王孙
 
帝里春晚,
重门深院。
草绿阶前,
暮天雁断。
楼上远信谁传?
恨绵绵。
 
多情自是多粘惹,
难拼舍,
又是寒食也。
秋千巷陌人静,
皎月初斜
浸梨花。
 


06/01/2008 15:01




27. XING XIANG ZI
Porta-incenso

Ouvindo o cricrilar dos grilos escondidos na grama,
As
folhas do plátano tombam assustadas.
Nesse
instante, o céu e a terra pesam de tristeza.
As
nuvens são escadas. A lua, chão.
E
isso me traz à lembrança mil portas fechadas.
Mesmo as barcas das fadas vindas do céu
E as
que ao céu retornam*
Não se encontrarão jamais.
 
As pegas, apesar de fiéis, 
Constroem a Ponte das Estrelas** apenas uma vez por ano,
Os
adeuses e as partidas afligem para sempre os amantes celestes!
Altair e Vega
Estão
longe um do outro, talvez***,
Senão por que a claridade,
Seguida de aversos
E de pés-de-vento?
 
 


*A
barca das fadas, barcas leves que navegam, segundo a mitologia chinesa, entre o mar e o céu.
**A
Ponte das Estrelas: segundo a mitologia chinesa, as pegas sobem cada ano ao céu, no dia 7 da sétima la para construir uma ponte que permita que Altair e Vega – astros esposos separados por ordem divina – se reúnam uma vez por ano.
***
Quando os dois amantes celestes se reúnem, para depois se separarem de novo, eles choram primeiramente de alegria e depois da dor da nova separação. Porisso, dizem, o tempo do dia 7 da sétima lua é quase sempre chuvoso e instável.




行香子 


草际鸣蛩、
惊落梧桐、
正人间天上愁浓。
云阶月地,
关锁千重,
纵浮槎来,
浮槎去,
不相逢。

星桥鹊驾,
经年才见,
想离情别恨难穷。
牵牛织女,
莫是离中。
甚霎儿晴,
霎儿雨,
霎儿风。



06/01/2008 15:06




28 XING XIANG ZI
Porta-incenso

Sob um claro céu de outono,
Desolada, ando
sem rumo.
Com o ouro dos crisântemos, aproxima-se a Festa do Duplo Nove*,
Tenho,
sobre mim, um vestido novo de seda fina;
E
em mim, o vinho quente que acabo de beber.
Mas, aqui e ali, um pé-de-vento,
Um golpe de chuva,
Um golpe de frio.

O
crepúsculo enche o pátio
E o
meucoração solitário.
Passada a embriaguês, acordo com penas de dias antigos.
Que noite sem fim!
A
lua clareia minha cama vazia.
Ouço as
lavadeiras batendo roupa,
O
canto estridente dos insetos,
E o
gotejar lento da clepsidra.





*A
festa do Duplo-Nove é o nono dia do nono mês, quando as pessoas saíam para piquenique nas colinas. Parece que essa festa foi criada em memória de Jie Zitui, que preferiu morrer queimado, mas não desceu da montanha Mian, para responder ao apelo tardio do duque Wen de Jin, na época da Primavera e Outono, entre 636 e 628.(Liang Paitchin).




行香子

天与秋光,
转转情伤,
探金英知近重阳。
薄衣初试,
绿蚁新尝,
渐一番风,
一番雨,
一番凉。
 
黄昏院落,
凄凄惶惶,
酒醒时往事愁肠。
那堪永夜,
明月空床。
闻砧声捣,
蛩声细,
漏声长。


06/01/2008 15:11




29. XIAO CHONG SHAN
Colinas perfiladas

A primavera volta ao Palácio de Changmen, *
Uma
vez mais a grama viceja
As ameixeiras da beira do rio florescem aqui e ali.
Triturado, o
chá vira cor de jade **
Guardo-o em pote com entalhes de nuvens azuis.
Ainda sob o efeito do sonho da madrugada,
Mas acordo de vez depois de uma xícara de chá.
 
As
flores jogam sombras nas portas.
A
lua entra através das finas cortinas.
Belo pôr do sol!
Duas
vezes em dois anos perdemos a primavera
Volta sem mais tardar e juntos aproveitemos,
O
que ainda resta desta estação!




*O Palácio de Changmen existia na disnastia Han. “Changmen” quer dizer em chinês “porta sempre fechada”. Nele eram fechadas as rainhas e favoritas em desgraça. (Liang Paitchin)

** Nesse
verso, o jade e branco descrevem a alvura da flor da ameixeira..
*** O
Príncipe do Leste é o sol.
**** Havia um costume durante a Dinastiia Song de triturar os tijoletes de chá em fino num pilão e depois levá-lo ao fogo para fazer chá.
 


小重山

春到长门春草青,
红梅些子破,
未开匀。
碧云笼碾玉成尘,
留晓梦,
惊破一瓯春。

花影压重门,
疏帘铺淡月,
好黄昏。
二年三度负君,
归来也,
著意过今春。
 


06/01/2008 15:20




30. MAN TING FANG
O Pátio Perfumado

As ervas exalam perfume em volta do lago.
As
árvores jogam suas sombras no pátio.
Depois do sol se pôr, o frescor penetra o mosquiteiro de tule.
Cortinas baixadas e fechaduras douradas afastam as visitas.
Sozinha à mesa, contemplo meu copo,
Quanta saudade, ele está num lugar distante.
E
me pergunto se um dia ele voltará para mim.
As
pétalas da alamanda cobrem o chão**
As das
pereiras ainda demoram a cair!

Houve
um tempo em que os anos passavam velozes,
Em dias de encantamento:
As
mangas impregnadas de perfume de incenso,
O
chá servido no canto da lareira.
Ia às
festas em um barco-dragão ou em cavalos soberbos,
Puxando
carruagens em tumulto pelas estradas,
Sem temer vento forte ou chuvas torrenciais.
Fazíamos brindes ao nosso amor com vinho tépido
E em papel floreado escrevíamos poemas.
Mas hoje, aqui, sozinha,
Eu abraço
As
lembranças dos dias antigos.





满庭芳
芳草池塘,
绿阴庭院,
晚晴寒透窗纱。
□□金锁,
管是客来
寂寞尊前席上,
□□、海角天涯。
能留否?
落尽,
犹赖有□□
 
 
 
当年,
曾胜赏,
生香熏袖,
活火分茶。
□□龙娇马,
流水轻车。
不怕风狂雨骤,
恰才称、煮酒残花,
如今也,
不成怀抱,
得似旧时那。

06/01/2008 15:29




31. PU SA MAN
O Buda Bárbaro



 

 

菩萨蛮

 

 
绿云鬓上飞金雀。
愁眉翠敛春烟薄。
香阁掩芙蓉。
画屏山几重。  
 
窗寒天欲曙。
犹结同心苣。
啼粉污罗衣。
问郎归几时。

01/01/2008 11:53




32. MAN TING FANG
O Pátio Perfumado

 

 

O pequeno pátio esconde a primavera.
A
janela ociosa fecha o dia.
No
salão, o silêncio mais profundo.
Os
perfumes do incenso dispersam-se.
O
sol desce nas argolas do estore.
A
ameixeira que eu mesma plantei está mais bela do que nunca.
Que necessidade tenho de ir para beira d’água e ficar no alto do pavilhão?
Ninguém vem interromper
Minha solidão sempre igual
À de He Xun,
um dia, em Yangzhou*.

Eu sempre soube que, orgulhosa de sua graça,
Não agüentas mais a chuva que chega com promessas,
Nem do vento, a menor carícia.
É
preciso que eu ouça de longe o lamento da flauta,
Cujo sopro estremece a dor que fundo dói?
Não vamos nos arrepender de menos perfumes e pétalas brancas.
A
vassoura não poupa nem mesmo as marcas das flores.
Eis me aqui, não sabendo o que dizer:
Noite bela, noite clara,
As
sombras esparsas dispensam ainda seu charme, para me agradar.
 


*He Xun, poeta dos Liang, morreu em 527. Foi criança prodígio. Gostava das flores da amexeira. Plantou um de ameixas em seu jardim quando era funcionário em Yangzhou (no Jiangsu). Ao voltar a Yangzhou, depois de uma longa ausência, passeava sozinho todo dia em volta de sua ameixeira, compondo poemas.





满庭芳 
 
小阁藏春,
闲窗锁昼,
画堂无限深幽。
篆香烧尽,
日影下帘钩。
手种江梅更好,
又何必、
临水登楼。
无人到,
寂寥浑似,
何逊在扬州 
 
 
 
 
从来,
知韵胜,
难堪雨藉,
不耐风揉。
更谁家横笛,
吹动浓愁。
莫恨香消雪减,
须信道、
扫迹情留。
难言处、
良宵淡月,

疏影尚风流。

06/01/2008 15:39




33. DUO LI
Beleza Múltipla

 

 

No meu quarto, entra o frio do outono
E a
noite passa devagar atrás de cortinas fechadas.
Entristeço ao
ver que sua pele perde o viço,
Ao sopro do vento e à chuva que cai.
Não se parece com Gui Fei*, sempre bêbada,
Não tem as sobrancelhas arqueadas de Sun Shou **,
A
fragrância de Han Ling, com seu raro perfume ***,
Ou os ares de Xu Niang ou Bo Fen****,
Perco a
graça ao compará-la,
Pois seu encanto e charme são exatamente
Os mesmos dos poemas de Qu Ping ou Tao Qian*****
Quando a brisa sopra e um perfume exala.

Pura como neve, fina como jade, na despedida do outono,.
Inclina-se melancólica na
direção de quem tanto a admira.
Lembra as
pérolas recebidas em Hangao como caução de amor*****
Ou a senhora Pan escrevendo poemas tristes num leque de seda.******
Depois do luar e da leve brisa, o nevoeiro denso e chuva forte.

Quanto a você, tão bela, tão fina, o céu impõe como destino que murche.
Impossível saber quanto tempo ainda resiste, mesmo com todo o desvelo.
Mas, me diz, precisa invejar as orquídeas de Qu Yuan nas margens do rio,
Ou os crisântemos que Tao Qian plantou em Dongting?
 
 
 


*A
favorita embriagada é Yang Taizhen (chamada também Yang Yuhuan), a preferida do imperador Minghuang, da Dinastia Tang, que reinou de 715 a 755. Ela era conhecida por sua beleza, seu gosto pelo luxo e pelo seufim trágicoela foi enforcada como exigência do exército no início da revolta iniciada em 755 por An Lushan. Ela inspirou muitas obras literárias chinesas, entre as quais, a ópera A Favorita Embriagada (Paitchin).
**Sun Shou foi a
mulher de um poderoso general, Liang Ji, executado em 159, por ordem do imperador Huan. Su Shou foi uma mulher bela e coquete. Franzir as sobrancelhas era sua maneira de ser coquete no jogo de sedução. (Paitchin).
***O
prefeito Han, chamado Han Shou, morreu em 292, durante a Dinastia Jin. Quando era secretário do ministroJia Chong, teve a filha do ministro como amante. Ela roubou de seu pai um perfume raro e lhe deu de presente. Ao reconhecer o perfume na roupa de Han Shou, o ministro descobriu a ligação secreta entre sua filha e seusecretário. Finalmente eles se casaram. Han Shou foi escolhido mais tarde prefeito de Henan. (Paitchin).
****A
Senhora Xu (em chinês, Xu Niang): alusão a Xu Zhaopei, favorita do imperador Yuan, dos Liang do Sul, que reinou de 552 a 554. Ela matou-se, cumprindo ordens imperiais, por causa de suas infidelidades. (Paitchin). As quatro imagens mostradas até agora indicam que a aparência de crisântemo não é graciosa demais como a da peônia, nem tão artificial como as sobrancelhas de Sun Shou, a fragrância de crisântemo não é tão fortecomo ade Han Ling, a cor de crisântemo não é tão branca como Xu Niang ou Bo Fen.
 

*****
Este verso evoca dois nomes ilustres: a: Qu Yuan (340-278) grande poeta lírico chinês, autor de Li Sao (O livro das lamentações), que morreu ao se jogar no rio Miluo, em Huan, para não ver o reino de Chu vencido por Qin. E b) Tao Qian (372-427), grande poeta e eremita da Dinastia Jin, conhecido pelo seu inconformismo e pelo seu amor por crisântemos. (Paitchin).
******
Esseverso faz alusão aum letrado chamado Zheng Jiaofu, que encontrou no Pavilhão dos Hangao, duas belas mulheres. Quando ele aproximou-se, elas tiraram uma pérola de suas roupas e lhe deram, desaparecendo em seguida. Pouco depois dele saircom as pérolas, as meninas sumiram e as pérolas também sumiram.
 (Paitchin).
*******
Esteverso evoca a história de Ban, uma favorita do imperador Cheng, da Dinastia Han, que reinou de 32 a 7. Muito amada no início peloimperador, foi rejeitada. Ela comparava-se com um leque no outono deixado de lado. (Paitchin).
********Qu Yuan estava exilado e
vinha sempre passear nas margens do lago Dongting. (Paitchin).
 



多丽
 
小楼寒
夜长帘幕低垂。
恨萧萧、
无情风雨
夜来揉损琼肌。
也不似、
贵妃醉脸
也不似、
孙寿愁眉。
韩令偷香
徐娘傅粉
莫将比拟未新奇。
细看取
屈平陶令
风韵正相宜。
微风起
清芬
不减酴
 
 
渐秋阑、
雪清玉瘦
向人无限依依。
似愁凝、

06/01/2008 15:51




33. HUAN XI SHA
Areia Lavada no Riacho

 

 

Meus cabelos sem pentear e a primavera chegando ao fim.
As flores da ameixeira caem no pátio ao sopro da brisa da tarde.
As nuvens pálidas, indo e vindo, escondem a lua efêmera.
A cânfora apagou-se no porta-incenso em forma de pato.
A cortina cereja, de franjas pendentes, continua fechada.
O pente não consegue desembaraçar minha tristeza.
 
 
 


浣溪沙
 
髻子伤春慵更梳,
晚风庭院落梅初。
淡云来往月疏疏。
  
玉鸭熏炉闲瑞脑,
朱樱斗帐掩流苏。
通犀还解避寒无?
 
 

01/01/2008 11:38




34. HAO SHI JIN
Perspectivas de bons negócios

 

 

O vento cessa. Flores e mais flores no chão.
Além dos estores, amontoam-se pétalas vermelhas e brancas
Eu me lembro sempre dos pés de abricó que floresceram,
Antes de minha dor na primavera.

Depois do vinho e das canções, o copo vazio,
Na
borda da candeia, a chama bruxoleia.
E
mesmo em sonho meu coração é um sofrimento ,
Mais dilacerante que o pio do cuco.




好事近

风定落花深,
帘外拥红堆雪。
长记海棠开後,
正是伤春时节。

酒阑歌罢玉尊空,
青缸暗明灭。
魂梦不堪幽怨,
更一声啼
 

06/01/2008 15:54




35. TAN PO HUAN XI SHA
Ária modificada de lavar a areia do riacho

 

 


Despencas
em chuva de ouro,
Formando
camadas espessas com tuas folhas talhadas de esmeralda.
Teu espírito e tua graça evocam Yanfu* pelo caráter nobre
Resplandecente.

Diante ti, a flor da ameixeira é vulgar
E
grosseiro o lilás, cheio de nós.
Com teu aroma, reavivas a saudade daquele que está longe,
Tu és uma flor sem coração!
 
 
 
*Yanfu é o segundo nome de Yue Guang (morreu em 304), um letrado conhecido pelo espíritoclaro, muitas vezes comparado a um espelho que reflete o céu. (Paitchin)


摊破浣溪沙

揉破黄金万点轻,
剪成碧玉叶层层。
风度精神如彦辅,
太鲜明。

梅蕊重重何俗甚,
丁香千结苦粗生。
熏透愁人千里梦,
却无情。
 


06/01/2008 15:58




36. TAN PO HUAN XI SHA
Areia Lavada do Riacho

 

 

Tristeza. Depois da doença, os cabelos grisalhos!
Da
cabeceira, vejo subir a lua pálida pela janela.
O
cardamomo fervido com os ramos
Para um chá sem convivas.

Ler poesia na cama, coisa boa de se fazer!
Fora, a paisagem acolhe a chuva para ficar bonita.
E
todo dia, me envias teu perfume insinuante,
Flor de canela!


摊破浣溪沙
 
 
病起萧萧两鬓华
卧看残月上窗纱。
豆蔻连梢煎熟水
莫分茶。
枕上诗书闲处好
门前风景雨来佳。
终日向人多酝藉
木犀花。
 
 

06/01/2008 16:01




37. YI QIN E
Pensar na Bela Qin

 

 

Vistos do alto do pavilhão
Os
montes em desordem e a planície desolada sob a tênue bruma.
No
crepúsculo vaporoso,
Os
corvos voam de volta aos ninhos;
Enquanto, no céu escuro, ecoa uma trompa.

O
incenso no fim, um resto de vinho e de tristeza.
 As
folhas de plátano caem
Ao
sopro (do vento oeste).
De
novo as cores do outono
E
mais solidão ainda.
 





忆秦娥

临高阁,
乱山平野烟光薄。
烟光薄,
栖鸦归後,
暮天闻角。

断香残香情怀恶,
西风催衬梧桐落。
梧桐落,
又还秋色,
又还寂寞。
 

 

06/01/2008 16:04




38. WU LING CHUN
Wuling na Primavera

O vento cessa,
E das flores caídas recende o perfume.
O diapassa, ânimo nenhum,
Nem mesmo para pentear meus cabelos.
Suas coisas estão aqui,
Ele se foi, o mundo morreu.
Se
tento falar, desabo em choro.
 
Dizem
que é primavera em Shuangxi,
E
ir até é meu desejo,,
Mas tenho medo de que o pequeno barco,
Não suporte o peso da minha dor.


武陵春 
 
风住尘香花已尽
日晚倦梳头。
物是人非事事休
欲语泪先流。
闻说双溪春尚好
也拟泛轻舟。
只恐双溪舴艋舟
载不动许多愁。


06/01/2008 16:07




39. GU YAN ER
A Solidão do Ganso Selvagem

 

 

Cama de junco com estore de papel. Amanhece. Abro os olhos.
Em vão procuro a palavra certa para expressar minha saudade.
O incenso queimou até o fim - as cinzas estão frias -
Como meu coração, no torvelinho das águas.
Por três vezes a flauta repete a ária “o cair das flores da ameixeira
E de repente um botão desabrocha,
Quanta saudade nessa primavera!
 
Brisa leve, chuva fina,
Primeiras gotas, na forma de lágrimas no meu rosto.
Cala-se o flautista, vazio o pavilhão.
Com quem compartilhar tanta saudade?
Eu colho um ramo da ameixeira
Mas sobre a terra inteira e mesmo no céu,                                             
Não tenho a quem oferecê-lo.
 


 



孤雁儿
藤床纸帐朝眠起
说不尽无佳思。
沈香断续玉炉寒
伴我情怀如水。
笛声三弄
梅心惊破
多少春情意。
 
小风疏雨萧萧地
又催下千行泪。
吹箫人去玉楼空
肠断与谁同倚
一枝折得
人间天上
没个人堪寄。


06/01/2008 16:11




40. SHENG SHENG MAN
Cada Nota é Lenta

 

 

Eu tateio à esquerda, tateio à direita.
Frio, se me distancio, quente, se me aproximo,
Meu coração, entre tantas sombras, erra pálido e sombrio.
O
calor súbito cede ao frio que vem interrompê-lo.
Difícil agüentar, não consigo,
Depois de dois ou três copos de vinho,
Como, na noite, resistir a esse suplício?
Os
gansos selvagens passam
E o
meu coração desaba,
Amigos meus, velhos conhecidos.
Flores amarelas, murchas, mortas, no chão,
Qual delas gostaria de colher hoje?
Imóvel, diante da janela, sozinha,
Que forças terei para esperar a noite?
O
plátano... a chuva fina,
Gotejando assim, no crepúsculo,
E essa
e terrível palavra, tristeza.





声声慢
 
寻寻觅觅,
冷冷清清,
凄凄惨惨戚戚。
乍暖还寒时候,
最难将息。
三杯两盏淡酒,
怎敌他、
晚来风急?
雁过也,
正伤心,
却是旧时相识。
 
 
 
 
 
满地黄花堆积。
憔悴损,
如今有谁堪摘?
守著窗儿,
独自怎生得黑?
梧桐更兼细雨,
到黄昏、
点点滴滴。
这次第,

06/01/2008 16:15




41. LIN JIANG XIAN
A Fada diante do Rio

 

 

O pátio é profundo, como é profundo o pátio!
A
névoa fecha as janelas do pavilhão e adia a primavera.
Folhas nos ramos do salgueiro, flores na ameixeira,
A
primavera nas árvores de Moling*.
E
eu, envelhecendo em Jiankang*.

Ouvir a lua, cantar ao vento, apenas lembranças,
Pois agora, velha, descubro que nada fiz.
Quem vai me lamentar, tão , tão triste, tão sem viço?
Não tem mais graça sair para apreciar as lanternas**,
Nem vontade de caminhar na neve.
 
 
 
 
*Moling e Jiankang eram antigos nomes da cidade de Nanjing, na província de Jiangsu. .
**Do Festival das Lanternas




临江仙 
 
庭院深深深几许
云窗雾阁常扃。
柳梢梅萼渐分明。
春归秣陵树
人老建康城。
 
感月吟风多少事
如今老去无成。
谁怜憔翠更雕零。
试灯无意思
踏雪没心情。
 


06/01/2008 18:33




42. LIN JIANG XIAN
A Fada diante do Rio

 

 

O pátio é profundo, como é profundo o pátio!
A
névoa fecha as janelas do pavilhão e adia a primavera.
Por que me deixar perder o viço, assim langorosa?
Ontem de noite, um sonho claro:
Nas
ramagens que dão para o sul, flores novas desabrochadas.

Pétalas de jade, hastes de sândalo, para sempre o arrependimento.
Que no alto do pavilhão sul a flauta de bambu se cale
Quem sabe o som levou embora todo o perfume.
Vento tépido, não retarde a passagem do dia,
Até se abrirem as flores da amendoeira.


临江仙

庭院深深深几许,
云窗雾阁春迟,
为谁憔悴损芳姿。
夜来清梦好,
应是发南枝。

玉瘦檀轻无限恨,
南楼羌管休吹。
浓香吹尽有谁知,
暖风迟日也,
别到杏花肥。


06/01/2008 18:37




43. YONG YU LE
A alegria do eterno reencontro

 

 

O sol poente, fusão de ouro,
As
nuvens da tarde, jade confundido,
Onde está quem eu tanto amo?
As cores dos salgueiros fecham-se de bruma.
A
ameixeira estremece ao lamento da flauta.
Como sondar o coração da primavera?
A
Festa das Lanternas*
Chega com a doçura de tempo bom.
E se de uma
hora para outra, ao vento suceder a chuva?
Os
que me convidam enviam
Carruagens perfumadas, cavalos escolhidos.
Amigos meus de vinho e de poesia, eu vos agradeço um por um.

Oh Zhongzhou, dias felizes,**
Nos aposentos das mulheres eu me distraía
E a
alegria ao chegar a Festa das Lanternas, a festa mais bela,
Meu chapéu enfeitado de plumas verdes
Os
cabelos trançados com fios de ouro***
E cingida
com as mais belas cintas,
eu me apressava com charme e elegância...
E
agora, este rosto sem viço.
Cabelos ao vento, molhados de bruma,
E
esse medo de sair para a noite,
Melhor me esconder atrás da cortina da janela
E
ouvir os risos e as conversas que chegam de fora.

 


*A “Festa da Primeira Lua Cheia” cai no dia 15 de janeiro, segundo o calendário lunar;
**Zhongzhou é o
nome geográfico da região atualmente ocupada por Henan. Nessa região estava a capital dos Song do Norte, Bianliang (atual Kaifeng) onde Li Qingzhao passou uma parte de sua juventude.
***“
Folhas de salgueiro nevados à fios de ouroeraumornamentofemininopara os cabelos, muito à monda na época dos Song (Paitchin).






永遇乐

落日熔金,
暮云合璧,
人在何处?
染柳烟浓,
吹梅笛怨,
春意知几许?
 
元宵佳节,
融和天气,
次第岂无风雨?
来相召、
香车宝马,
谢他酒朋诗侣。
 
 
 
 
中州盛日,
闺门多暇,
记得偏重三五。
铺翠冠儿,
拈金雪柳,
簇带争济楚。
 
如今憔悴,
风鬟霜鬓,
见夜间出去。
不如向、
帘儿底下,

听人笑语。

06/01/2008 18:44




44. QING PING LE
Alegria Pura e Tranqüila

 

 

Como todos os anos, tudo se cobre de neve,
E
eu, bêbada, ponho flores de ameixeira nos cabelos.
E as despetalo, uma a uma, e
nada me sossega,
ganhei, sobre meu vestido, lágrimas claras!

Este ano, neste canto perdido entre o céu e a terra,
meus cabelos embranquecem nas têmporas.Tristeza!
Vi a
destruição que o vento causou durante a noite:
Difícil encontrar, agora, flores de ameixa ainda belas!




清平乐

年年雪里,
常插梅花醉,
挪尽梅花无好意,
赢得满衣清泪!

今年海角天涯,
萧萧两鬓生华。
看取晚来风势,
故应难看梅花。
 

 

06/01/2008 18:48




45. QING YU NA
A Mesa de Opala

 


O
cavalo a galope desaparece na estrada de Handan.
Porque a pressa de partir? Não tão rápido, cavaleiro!
Sem ti, o que será do outono? O vento é triste!
Nossos drinques ao lado da janela,
Conversas à sombra, junto da lâmpada,
Delícias de estarmos juntos.

Pena termos nos encontrado apenas ao entardecer.!
Mas ainda sabemos escrever versos que surpreendem,
Como o da imagem famosa de flocos de neve e painas de salgueiros.
Agora, pálida e cansada,
Tenho
apenas lágrimas para derramar,
Como a chuva nas folhas amarelas da ameixeira.





 

 青玉案

 
征鞍不见邯郸路
莫便匆匆归去。
秋风萧条何以度。
明窗小酌
暗灯清话
最好流连处。

相逢各自伤迟暮。
犹把新词诵奇句。
盐絮家风人所许。
如今憔悴,
但馀双泪,
一似黄梅雨。


06/01/2008 10:06




46. HUAN XI SHA
Lavar areia do riacho

 

 

Seu rosto, flor de lótus, desabrocha ao sorrir.
grampo de jade em forma de pato estende as asas para as maçãs de seu rosto
Seus olhos não conseguem esconder nenhum sentimento.
 
 
A cabeça inclinada, o perfil belo de gracioso,
À folha de papel confia o seu segredo:.
Volte, quando a sombra das flores vier da luz da lua.




浣溪沙
 
 
 
绣面芙蓉一笑开
斜飞宝鸭衬香腮。
眼波才动被人猜。
一面风情深有韵
半笺娇恨寄幽怀。
月移花影约重来。

06/01/2008 19:00




47. MU LAN HUA
Um ramo florido
Ao som da canção Magnólias em Flor, reduzido

 

 

Do florista eu comprei
Um ramo de primavera,
Com o botão prestes a desabrochar.
Coberto ainda de orvalho,
Ele ainda refletia a cor rubra da aurora.
 
Tive medo de que você achasse
Meu rosto menos belo do que a flor
Nos meus cabelos, em oblíquo, enfiei o ramo:
Num lance, que você possa nos comparar.
 




减字木兰花
 
卖花担上
买得一枝春欲放。
泪染轻匀
犹带彤霞晓露痕。
 
怕郎猜道,
奴面不如花面好。
云鬓斜簪
徒要教郎比并看。
 
 


06/01/2008 19:04




48. CAI SANG ZI
Colher amoras

 

 

O céu escurece, começa a ventar e cai a chuva,
Levando
embora o calor sufocante
Ela arruma no estojo a flauta de bambu
Antes de se maquiar diante do espelho.

A
seda púrpura do seu penhoar é tão fina
Que se pode entrever suapele, lisa e perfumada.
Sorrindo,
ela diz: amor, esta noite,
Atrás da cortina de gaze, fresca será nossa cama.


采桑子
 
晚来一阵风兼雨,
洗尽炎光。
理罢笙簧,
却对菱花淡淡妆。
 
绛绡缕薄冰肌莹,
雪腻酥香。
笑语檀郎,
今夜纱枕簟凉。
 


06/01/2008 19:06




49. DI REN JIAO
A bela sem fôlego

 

 

 

 

 

Da
ameixeira, esse perfume denso,
Com as flores soltando-se em flocos brancos.
E
eu, como me arrependo dessa visita tão tardia!
As
torres das ribeiras, os pavilhões de Chu*,
Ao
longe, as águas, as nuvens de passagem,
O
dia que insiste, envolto em claridade,
Tudo isso me retém na balaustrada,
Com a cortina verde enrolada.

Para o banquete chegam os convidados
O
vinho é servido; os cálices estão cheios.
Os
cantos em ondas, em nuvens que se vão.
Tão bonitas para um vaso, essas ramagens do sul,
Que se cortem outras, mais e mais.
Não esperemos que a oeste, no alto do pavilhão,
Comece a
soluçar a flauta de bambu.
.
 
 
 


* Os “
pavilhões de Chu” designam as casas de prazer. Outrora, no reino de Chu (529 a 278) esses pavilhões eram destinados aos prazeres e eram muito frequentados

 


 
 



人娇
 
玉瘦香浓,
檀深雪散,
今年恨探梅又晚。
江楼楚馆,
云间水远。
清昼永,
凭栏翠帘低卷。
 
坐上客来,
尊前酒满,
歌声共水流云断。
南枝可插,
更须频剪,
莫待西楼,
数声羌管。



06/01/2008 19:15




50. YUAN WANG SUN
Queixar-se ao Príncipe

 

 

O tempo verte da clepsidra. O sonho acaba.
Dor profunda. Desconforto da embriaguês!
No
travesseiro de jade, o frio penetra.
O
biombo verdepara a aurora.
Diante da porta, quem varreu as pétalas vermelhas?

Cala-se a
flauta e me pergunto: onde ele está?
A
primavera veio, mas de novo está de partida.
Vai
atrasar ainda mais, por certo, o dia de seu regresso.
“Esta tristeza e também este amor,
Posso
agora confiá-los à nuvem que passa?”
É a
perguntaque faço à primavera.




怨王孙 

梦断漏悄,
愁浓酒恼。
宝枕生寒,
翠屏向晓。
门外谁扫残红?
夜来风。 

玉箫声断人何处?
春又去,
忍把归期负。
此情此恨此际,
拟托行云,
君。


06/01/2008 19:18




51. LANG TAO SHA
As ondas lavam a areia

 

 

Ao som da quinta vigília, o vento agita as cortinas
E
leva meu sonho melancólico sem deixar traços.
Com quem, agora, subir novamente ao alto do pavilhão?
Ah,
hora em que eu atiçava o porta-incenso com meu grampo de jade,
E o
sândalo queimava até o fim!*

Eu me viro para o Monte de Ouro Violeta**
As
escarpas brilhantes de chuva,
E o pico coberto de neblina.
No
rio, as vagas da primavera parecem de ressaca
Deixarei minhas lágrimas de ontem sobre o meu vestido de seda.
E as
lanço aareis gansos selvagens, que as levarão para longe, como mensagem.
 

*A
fumaça do incenso apagada: literalmente: “o incenso gravado comcaracteres arcaicos, uma vez queimado, deixa apenas o vazio”.
**O
nome do Monte de Ouro Violeta está localizado em Nanjing e tem ainda o mesmo nome.




浪淘沙 

帘外五更风,
吹梦无踪。
画楼重上与谁同?
记得玉钗斜拨火,
宝篆成空。 

回首紫金峰,
雨润烟浓。
一江春浪醉醒中。
留得罗襟前日泪,
弹与征鸿。
 


06/01/2008 19:23




52. LANG TAO SHA
As ondas lavam a areia

 

 

Tão miúda, a cintura tão frágil, como suportar a dor da primavera?
Debaixo das sombras esparsas das ameixeiras, com um leve vestido de noite,
Graciosa e delicada, ao que se parece mais?
A
um fiapo de branca nuvem?
Uma
canção comovente move seus lábios vermelhos:
Cada palavra é um lamento que nos toca
E entreabre o
caminho único dos pessegueiros em flor.
No
terraço de cristal que a lua vem banhar,
Acompanha o
clarão de luz que chega do horizonte.


浪淘沙
 
素约小腰身,
不奈伤春。
疏梅影下晚妆新。
袅袅娉娉何样似?
一缕轻云。
 
歌功动朱唇,
字字娇嗔。
桃花深径一通津。
怅望瑶台清夜月,
还送归轮。
 


06/01/2008 19:26




53. LANG TAO SHA
As Ondas Lavam a Areia

 

Tão miúda, a cintura tão frágil, como suportar a dor da primavera?
Debaixo das sombras esparsas das ameixeiras, com um refrescante vestido de gala,
Graciosa, delicada, ao que ela se parece mais?
A
um fiapo de branca nuvem?
Uma
canção comovente move seus lábios vermelhos:
Cada palavra é um lamento que nos toca
E entreabre o
caminho único dos pessegueiros floridos.
No
terraço de cristal que a lua vem banhar,
Acompanha o
clarão de luz que chega do horizonte.

 


浪淘沙
 
素约小腰身,
不奈伤春。
疏梅影下晚妆新。
袅袅娉娉何样似?
一缕轻云。
 
歌功动朱唇,
字字娇嗔。
桃花深径一通津。
怅望瑶台清夜月,
还送归轮。
 


18/12/2007 11:03




54. A perdiz traz bom presságio
rui zhe gu
Dois gingkos alvos prateados

 

 

Como eles são belos e cheios de graça, mas sem pompa!
Durante a festa, a doce clementina quer ser sua confidente.
Mas quem ousaria reclamar por terem errado pelo lago e pelo rio
E
pela recusa, em rosa de jade e em carne de cristal, a perder o viço?


Como o imperador Minghuang, embriagado, inclinando-se para Taizhen*?
O
eremita tem razão de cortar esse elo**:
Que o casal cante um poema novo, mas que cada um cante o seu.

 
 
*O imperador Minghuang, da Dinastia Tang, que reinou de 715 a 755, é conhecido por paixão por Yang Taizhen.
**
Esse eremita pode ser Zhao Mingcheng, marido da poetisa.


18/12/2007 11:19




55. A Pesca do Palácio em Duas Cores

 

 Jade talhado: os botões abrem o veludo de seus cálices.
Nas
árvores, nos jardins, nos bosquesausência do verde prometido.
Floresce
então de repente um ramo acima da neve.
Tenho
cartas a enviar a Jiangnan*, mas a quem confiá-las?

dois anos subimos ao alto do pavilhão.
Este ano, essa lembranca reaviva a alegria de ontem.
Retenho
um verso de Le Tian* a dizer:
Que quando as flores se abrem, é com o presente que devemos nos alegrar.



18/12/2007 10:32




56. Como um Sonho
ru meng ling

 

 

Sentada diante da janela. Quem vai me ver?
Minha sombra e eu. Agora somos duas.
O sono chega e apago
minha lâmpada.
Minha sombra vai fugindo, fugindo.
O que fazer,
O
que fazer,
Com essa falta de ânimo e sofrimento?



18/12/2007 11:43




57. YU ZHU XIN
Viva é a vela cor de jade

 

De pétalas frescamente cinzeladas,
Abrem-se diante da fonte as flores de damasco,
Depois do grande frio de dezembro,  
Graciosas e perfumadas,
tão doces e tão belas,
Elas entremostram o coração da primavera que palpita.
Ontem, na saída da cidade,
Silêncio nas margens,
Flores esparsas balançando vestidos de sombras.
E
perfumes densos impregnando meu colarinho e mangas.

O
vinho me inspira um poema para o homem de talento.
Como são as paisagens além dos montes?
Pode
dizer alguma coisa, velho companheiro?
As
flores na fronte de Shouyang*
Não se igualam a essa única, de cor branca, aqui inclinada sobre as ondas puras,
Mais belas ainda sob a chuva e o vento.
É
tempo de nos enfeitarmos com flores nos cabelos.
Acredite-me: a
flauta de Qiang,
Vai
logo recomeçar os seus lamentos!



18/12/2007 10:49




58. DIAN JIANG CHUN
Mancha escarlate nos lábios


No
silêncio do meu quarto.
Mil fios tecem a trristeza em meu coração!
A primavera vai embora, a primavera de que tanto gosto!
As
gotas de chuva apressam a queda das flores.

Eu me apóio à balaustrada.
Com a cabeça cheia de pensamentos confusos.
Onde ele estará nesse momento?
Até o horizonte estendem-se as flores murchas
E
meu olhar percorre o caminho de seu regresso.




18/12/2007 10:58