01 O Jovem Mestre de Confúcio
por Dong Yuan Za Zi, Guanzhou, 1864. Tradução de Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

   Confúcio estava muito cansado de ler e decidiu descansar um pouco. Mas o que fazer? Mesmo quando descansava, ele queria fazer alguma coisa. Resolveu então sair num carro de búfalo para ir até o Monte Jing. Enquanto os búfalos negros avançavam pela estrada, ele admirava a primavera que tinha chegado. E pouco depois, ele avistou a montanha, com um colar de neblina. Confúcio ficou muito contente. Ele tinha certeza de que do alto  poderia avistar todo a planície, até se perder de vista, com a crista das colinas perfiladas mais adiante, uma depois da outra, até o horizonte.

Estava tão distraído que nem percebeu um menino fazendo barro com um balde de água, para erguer uma muralha de brinquedo no meio da estrada. Confúcio achou muito estranho, pois não tinha passado por nenhuma casa por perto. Mas não se importou. A casa onde o menino morava podia estar entre as árvores. Ele ergueu o braço e deu um grito para que os búfalos avançassem, achando que o som de sua voz serviria também para alertar o menino, pois, afinal de contas, o meio da estrada não é o melhor lugar para se brincar.
O menino que construía a miniatura da muralha virou a cabeça, avistou os búfalos puxando a carroça e depois o condutor. Em seguida, pegou mais um pouco de barro e completou a edificação, sentando-se atrás dela, como se assim estivesse protegido. Confúcio ficou bravo:
- Ei, não vê que estou passando? Sai do caminho, quero chegar logo ao Monte Jing
O menino caiu na risada:
- É o carro de búfalo que tem de contornar a muralha. Onde já se viu uma muralha sair do lugar para dar passagem a um carro de búfalo, de boi ou outro qualquer!
Ouvindo isso, Confúcio teve duas reações. A primeira, de raiva. Que falta de respeito com os mais velhos! E também de admiração: o menino tinha dado uma boa resposta. Então contornou a muralha - para isso teve de entrar no mato - e parou ao lado do menino. Perguntou quantos anos ele tinha:
-Sete – foi a resposta.
- Só sete? Apesar de sete, me deu há pouco uma boa resposta. Qual é o seu nome?
- Não tenho nome nenhum.
Confúcio olhou bem para o menino e pensou, ele é inteligente, mas agora vai se ver comigo. Pensou isso porque Confúcio gostava também de brincar, só que com palavras e idéias. E queria saber até onde uma criança de sete anos conseguiria acompanhá-lo nesse jogo.
- Sem Nome, me diz uma coisa: conhece montanha sem pedra? Pé sem dedo? Céu sem passarinho?  Água sem peixe? Porta que não fecha? Égua sem potrinho? E fogo sem fumaça, conhece? Conhece homem sem mulher? Mulher sem marido? Macho sem fêmea? Árvore sem galho? Cidade sem governo? Gente sem nome?
Ele disse, bem devagar, como se mastigasse as palavras. O menino ergueu a cabeça e respondeu, bem devagar, como se cuspisse a resposta:
- Uma montanha de terra não tem pedras. Pé-de-mesa não tem dedo. No céu da boca pássaro não voa. A água do poço é sem peixe. Porta sem batente não fecha e um cavalo de madeira não dá cria. Além disso, fogo-fátuo não solta fumaça. Imortal não tem mulher. Fada não tem marido. Solteiro vive sem mulher. Árvore seca não dá galhos. Uma cidade abandonada não tem prefeito. E menino, como eu, não tem nome.
Confúcio engoliu em seco. O menino tinha resposta para tudo:
- Você tem resposta para tudo. Vamos sair juntos pelo mundo, para que ele seja em tudo igual?
- O mundo não pode ser igualado. No alto, erguem-se as montanhas, embaixo, correm os rios e estende-se o mar. De um lado, uns governam, mas do outro, estão os governados. Por isso o mundo não pode ser igualado. Poderia ser mais igual, isso, sim!
- Se nós dois aplanássemos as montanhas, teria terra e rocha para encher o mar e os rios. Nós poderíamos também expulsar os que têm tudo e libertar os escravos. Nesse caso, o mundo seria igualizado.
- Se aplanássemos as montanhas, onde os animais se refugiariam? Se enchêssemos o mar e os rios, onde nadariam os peixes? E se expulsássemos os que têm tudo, quem iria lhe dar emprego? E se todos os escravos fossem libertados, por que continuariam a lhe pedir conselhos?
- Certo, certo – exclamou Confúcio – você consegue responder as questões mais complicadas, mas duvido de que seja capaz de responder as mais simples. O que é esquerda e direita?
- O Leste e o Oeste – respondeu o menino*.
- O que é interior e o que é exterior?
- O Sul e o Norte – respondeu ele.
- Quem é o pai, a mãe, o marido e a esposa?
- O céu é o pai, a terra, a mãe, sol é o marido, a lua, esposa – disse o menino.
- De onde vêm as nuvens e a neblina?
Ele tinha a resposta na ponta da língua:
- As nuvens são vapores de água que subem da terra e que voltam para a terra na gota de chuva, e a neblina sobe da terra, mas tem preguiça de chover.
- Quando o galo vira faisão? – perguntou Confúcio.
- Quando ele chega perto do brejo e da montanha.
- E quando o cão vira raposa?
- Quando ele chega perto das colinas e montes.
- Bom! – disse Confúcio - você não perde uma! Mas será que um menino de sete anos pode adivinhar isso aqui: a mulher está mais perto de seu marido que uma mãe de seu filho?
O menino riu novamente, como se achasse a pergunta muito fácil:
- A mãe está mais perto de seu filho que uma mulher, de seu marido.
- Ah, essa, não! – disse Confúcio – É o contrário. A mulher está mais perto de seu marido do que uma mãe de seu filho. E quer saber por quê? Porque durante sua vida a mulher e seu marido dormem juntos, na mesma cama, e cada um tem um travesseiro ao lado do outro. E quando morrem, estão lado a lado, nos seus túmulos.
- Quem perdeu foi o senhor - disse o menino – porque o que eu disse é certo, pois é o contrário do contrário: a mãe está mais perto de seu filho que uma mulher, de seu marido. E provo o que estou dizendo: a mãe é para o filho o que as raízes são para as árvores. Uma mulher é para o seu marido o que as rodas são para o carro. Quando a mãe morre, o filho é órfão para sempre. Que nem a árvore ao morrer: secam seus galhos e suas folhas. Mas se uma mulher morre, seu marido pode se casar com outra mulher e recuperar a alegria. Do mesmo jeito, um carro, quando perde as rodas, pode conseguir outras novas. Ou então, todo o carro pode ser novo. O senhor me desculpe, mas só um louco diria que uma mulher está mais perto de seu marido do que de seu filho.
Dessa vez, Confúcio pareceu confuso. O menino aproveitou a oportunidade e interrogou o mestre:
- Respondi todas as suas perguntas, agora, peço que responda as minhas. Como os gansos e os patos conseguem nadar? Como os grous e os gansos selvagens conseguem gritar?  Como os pinheiros e os ciprestes conseguem ficar sempre verdes, tanto no verão como no inverno?
Confúcio respirou fundo. As perguntas eram fáceis. Superfáceis.
- Porque eles têm as patas espalmadas.
O menino balançou a cabeça:
- Não é uma boa razão. Primeiro, pata não pode ser espalmada, porque palma existe é na mão. E as tartarugas também nadam, e não têm as patas "espalmadas".
Pego de surpresa, Confúcio disse:
- Pois é... - mas se recuperou logo, passando para a pergunta seguinte: - Como têm um pescoço comprido, os grous e os gansos selvagens podem gritar.
O menino sacudiu a cabeça:
- Também não é uma boa resposta. As rãs também gritam e elas não têm pescoço comprido.
De novo Confúcio ficou mudo. E depois conseguiu dizer:
- Pois é... - e passou para a última pergunta – como têm um cerne duro, os pinheiros e os ciprestes ficam sempre verdes, tanto no verão como no inverno.
Mais uma vez o menino sacudiu a cabeça:
- O senhor nunca dá a boa razão ou a boa resposta: o bambu também fica sempre verde, no inverno e no verão, e ele nem cerne tem, pois é oco por dentro.
Confúcio, cada vez mais confuso, calou-se, enquanto o menino fazia as últimas perguntas que tinha para fazer:
- Quantas estrelas tem no céu?
Confúcio pareceu fugir da pergunta:
- Estamos falando da terra e não do céu.
- Certo, não vamos falar do céu.  Quantas casas existem sobre a terra?
Confúcio ficou nervoso:
- Melhor não falar nem do céu nem da terra. Vamos falar das coisas que estão diante dos olhos.
O menino riu novamente:
- Ah, certo – disse – vamos falar das coisas que estão diante de nossos olhos: quantos pelos o senhor tem nas sobrancelhas?
Confúcio pareceu cansado e suspirou:
- Desisto, eu não consigo  ganhar, nem  fazendo perguntas, nem respondendo as que  me faz. Acho agora que temos de temer uma criança. Você quer seu meu mestre?
O menino continuou a brincar em silêncio na estrada e não respondeu.
 
 

12/01/2008 09:23





02. A Pereira Mágica
por Pu Songling (1640-1715)

 Um camponês vendia no mercado pêras  doces e perfumadas, mas muito caras. Diante da carroça de pêras, um monge taoísta pedia esmolas. Ele tinha a túnica esfarrapada e o capuz rasgado.

-Quer fazer a gentileza de dar o fora daqui! - gritou o camponês.
O monge recusou-se a ir embora. Com muita raiva, o camponês começou a insultá-lo. Depois de um tempo, o monge disse:
-Você tem uma quantidade enorme de pêras, e eu, um velho monge maltrapilho, quero uma só. Por que ficar com tanta raiva, se vai perder muito pouco se me der o que estou pedindo?
As pessoas em volta sugeriram que o vendedor de pêras se livrasse do monge dando-lhe uma, não das mais bonitas, claro, para que ele deixasse o lugar, mas o camponês se recusou a aceitar essa idéia.
No fim, um rapazinho de uma birosca ali perto, atordoado com a gritaria, tirou do bolso uns tostões e comprou come uma pêra, oferecendo-a ao monge, que prontamente agradeceu gesto tão caridoso. Em seguida, o monge virou-se para a multidão e disse:
-Nós, religiosos, que deixamos nossas famílias, não conseguimos compreender por que existe tanta avareza. Eu, por exemplo, tenho pêras excelentes, e gostaria muito de reparti-las com vocês.
- Mas, se tem pêras excelentes, por que não come uma delas, em vez de ficar aqui nos aborrecendo? – perguntou um dos homens.
-Porque eu preciso das sementes para plantar – respondeu o monge.
Imediatamente, ele pegou a pêra com as duas mãos e começou a comê-la. Pelo jeito, devia estar bem gostosa. Antes de terminar, pôs as sementes na palma da mão, tirou a pequena pá que carregava na cintura, usada para colher plantas medicinais e começou a cavar um buraco. Quando o buraco ficou pronto, jogou dentro deles as sementes, cobrindo-as com terra.
O monge ficou de pé, examinou com cuidado a cova que tinha feito e disse que precisava regá-la com água quente. Um curioso trouxe um pouco, de uma venda ali perto, e o monge despejou-a devagar sobre a terra recém revolvida.
Todo mundo seguiu seus movimentos com atenção. E nesse instante, saiu da terra um broto, que cresceu, e instantes depois se transformou numa árvore com galhos frondosos. Nem bem as pessoas se recuperaram da surpresa, as flores desabrocharam nos galhos, que se inclinaram, carregados de pêras doces e perfumadas. 
O monge taoísta subiu na pereira e começou a colher as pêras dos galhos mais altos, oferecendo-as a quem quisesse. Num piscar de olhos, tudo foi distribuído. O monge pegou então a pá e bateu com ela no tronco da pereira, quebrando-o em pouco tempo. Pôs o tronco nos ombros, com a folhagem, e seguiu tranqüilamente pela rua.
O camponês, que tinha entrado no meio da multidão logo no início, quando o monge tinha começado a plantar as sementes, estava tão fascinado que nem se lembrava mais da carroça. E quando o monge afastou-se, voltou correndo para as suas pêras  e teve uma surpresa maior ainda: a carroça estava vazia.

Por fim ele compreendeu o que tinha acontecido. Eram suas as pêras que o monge havia distribuído de maneira tão generosa. Ele percebeu também que a carroça estava sem um dos varais, certamente serrado há bem pouco tempo. Indignado, foi atrás do monge. No canto do muro, estava o varapau que faltava. Era ele, então, o tronco da árvore! Quanto ao taoísta, nunca soube em que direção tinha seguido.          

Ilust. Paul Wolber


18/12/2007 14:56





03. O Homenzinho na Orelha



por Pu Songling, trad. Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli


 

Tan Jinxuan, trabalhava na subprefeitura de Zichuan, na província de Shandong, depois de ser aprovado nos exames de primeiro grau para funcionário público. Ele era taoísta e praticava exercícios respiratórios sempre que podia, mesmo quando fazia muito frio ou muito calor. Depois de muitos meses, achava que os exercícios de controle de respiração estavam lhe fazendo bem.
Um dia, pouco depois de se preparar para a meditação, escutou saindo de seu ouvido uma voz muito fina, tão fina que parecia a de uma mosca:
- Dá pra ver!
Tan Jinxuan abriu os olhos, mas não viu nada. Fechou-os novamente, prendeu a respiração, e os cochichos recomeçaram. Ele achou que esses cochichos eram um sinal de que seria imortal, e ficou muito contente com disso.
A partir desse dia, começou a ouvir essa voz logo que se sentava para meditar. E ficava ali, calado, esperando que a criatura de seu ouvido recomeçasse a cochichar, para descobrir como ela era.  
Uma vez, como escutou de novo o cochicho, perguntou:
- Dá pra ver?
Sentiu imediatamente uma cosquinha na orelha, como se estivesse saindo alguma coisa de seu ouvido. Num lance, percebeu que era um homenzinho, de mais ou menos dez centímetros, e de aspecto tão repugnante como o de um yaksa, o demônio de origem indiana. Maravilhado com as cambalhotas que o homúnculo dava no chão, Tang concentrava toda a sua atenção nesses movimentos, quando, de repente, ouviu um vizinho bater à porta, certamente para pedir alguma coisa emprestada. Com esse barulho, o homúnculo entrou em pânico, correu de um lado para  outro, como um rato em fuga que volta para a sua toca.

Sem fôlego, Tan nem conseguiu perceber para onde a criaturinha tinha corrido. E nesse instante mesmo caiu num estado de demência, gritando e chorando sem parar, só se curando seis meses depois, com um tratamento à base de poções com ervas colhidas no alto da montanha.

Ilust. Foto do livro Contemporary Chinese Painting "China", através de Sinclair


16/12/2007 11:02





04. Os Três Tigres
por Xu Fang, trad. Márcia Schmalz e Sérgio Capparelli

 

Nos últimos anos, nossa aldeia foi infestada por tigres, que devoraram muitas pessoas, mais do que se conseguiria contar. Viajantes que passavam por aqui diziam que isso acontecia também no resto da China.
Segundo muitos, os tigres errantes seriam enviados do céu, encarregados de procurar aqueles que tinham conseguido escapar do seu encontro com uma morte violenta. Outros afirmavam que debaixo da pele do tigre se escondem demônios ferozes, espíritos vingadores no estado de furor extremo. A verdade pode existir nessas duas explicações, mas nenhuma  é tão estranha como a do velho Huang.
O velho Huang morava em Mixi, a alguns quilômetros do distrito de Qiao. Ele tinha três filhos grandes na força da idade. Na primavera daquele ano, ele ordenou que eles fossem lavrar o campo nas colinas e durante muitos dias eles saíam bem cedo e voltavam no fim da tarde.
Um dia um vizinho disse ao Huang:
— Teu roçado está cheio de mato.
— Como pode ser? - respondeu o velho Huang. Meus filhos passam lá, trabalhando o dia inteiro.
— Parece que não -  respondeu o vizinho.
Intrigado, Huang decidiu seguir seus filhos. Na manhã seguinte, foi atrás deles. Logo que chegaram no bosque, no pé da colina, eles tiraram a roupa e a penduraram em galhos de árvore. Depois se transformaram em tigres, pulando e dando terríveis rugidos.
Aterrorizado, o velho Huang voltou depressa para a aldeia. Ele contou ao seu vizinho o que tinha visto e depois se trancou dentro de casa.
De noite, seus filhos voltaram. Esperaram muito, diante da porta fechada, mas niguém respondia quando chamavam. No fim, o vizinho saiu e explicou que seu pai os renegava, depois do que tinha visto no bosque.
— O que ele viu foi verdade -  reconheceram os rapazes. - Mas não fazemos assim por nossa vontade. É o mestre dos Céus que nos obriga.
Em seguida, o mais velho chamou seu pai.
— Pai, como poderíamos ser ingratos com o senhor? Sua bondade para conosco é sem limites. Ficamos desesperados por termos sido escolhidos já há tanto tempo para esse papel funesto. Nos últimos dias corremos por montes e vales, na esperança de encontrar alguém para pegar nosso lugar, porque não aceitamos a sorte que nos foi reservada. Não deu certo. Agora, mesmo com o senhor sabendo o que está acontecendo, não podemos desobedecer as ordens. No bolso de cima do meu casaco, pai, tem uma caderneta. Pega essa caderneta, pai, senão o senhor está perdido, e teremos nós três aqui assinado sua sentença de morte.
O velho Huang pegou a candeia e procurou no bolso de cima do casaco, de onde tirou a caderneta. Ele leu os nomes de todos aqueles que, no distrito, deviam ser mortos pelos tigres. Seu nome vinha em segundo lugar na lista.
— O que podemos fazer? — gritou, desesperado.
— Abre a porta, respondeu o mais velho. Acho que tem uma saída.
O velho Huang abriu a porta. O filho mais velho pegou a caderneta, e os três filhos, retendo os soluços, inclinaram-se diante do pai. Depois disseram:
— Que seja o destino do Mestre dos Céus. Agora, pai, veste quatroou cinco calças e camisas, uma por cima da outra, mas não afivela o cinto. E agora, reza ajoelhado. Temos um jeito de salvá-lo.
O velho Huang obedeceu. Nem bem tinha se ajoelhado, seus três filhos já tinham virado tigres e caíram sobre ele com as garras afiadas. Com patadas e dentadas, cada um arrancou uma camada das roupas e foram embora rugindo, com farrapos de roupa na garganta.
Nunca mais eles foram vistos na aldeia, e o velho  ainda hoje mora no mesmo lugar.
 
Desde a antiguidade, existem casos de homens que viram tigres. E tigres eles se tornam, irreversivelmente, da cabeça aos pés. O que é excepcional aqui, é que os três irmãos não tinham ainda deixado o mundo dos humanos. Seguramente, achar o pai na lista dos homens a serem mortos era para eles uma grande prova. E a astúcia imaginada, a fim de salvar a vida não deixa de ser engenhosa. Seus corpos tinham se tornado corpos de tigres, mas não o coração nem o espírito.
O mundo está cheio de seres com aparência humana e que não sabem reconhecer nem mesmo seu pai. E outros, que viram tigres, lembram-se ainda das coisas boas que receberam no tempo em que eram homens!
 
 

21/12/2007 11:01





05. Até a Metade do Céu
por Xinxu, trad. Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Quando o rei de Wei decidiu construir uma torre que iria chegar até a metade do céu, ele deu uma ordem:
-
Quem tentar me dissuadir, será condenado à morte.
Xu Wan,
um ministro de Wei, procurou-o com um cesto nas costas e uma lança na mão.
-
Senhor, ouvi que está querendo construir uma torre que vai chegar até a metade do céu - disse Xu,- e seu humilde servo veio lhe oferecer ajuda.
- O
que de forte tem para me oferecer?-  quis saber o rei.
-
Eu não sou forte -  respondeu Xu- mas eu posso trabalhar no projeto da construção.
-
Sim - disse o rei.
-
Senhor, ouvi dizer que a distância entre o céu e a terra é de 15 mil li. Como quer construir uma torre que chega até a metade da distância entre a terra e o céu, a torre deve ter 7.500 li de altura. Para agüentar essa estrutura, os alicerces devem ter a circunferência de oito mil li. Toda a suas terras juntas, senhor, não são suficientes para os alicerces. Há muito tempo atrás, os reis Yao e Shun estabeleceram ducados com a circunferência de cinco mil li. Se estiver determinado a construir essa torre, deve primeiro atacar os duques e pegar todas as terras deles. Mas ainda não vai ser o bastante. Deve também expulsar várias tribos que vivem em longínquas regiões ao norte, ao sul, a leste e a oeste. Quando conseguir uma áreas com limites de oito mil li, , sim, será o suficiente para os alicerces. Quanto a questão do material de construção, trabalhadores e depósitos de comida, tudo isso deve ser calculado em algumas centenas de milhões. For a da área cercada de 8 mil li, uma grande extensão de campos deve ser escolhida para a produção de comida para os trabalhadores se alimentarem enquanto estiverem construindo a torre. Quando todas essas condições para a construção das torres forem preenchidas, o trabalho pode começar.
O
rei ficou calado, sem encontrar uma resposta. Ele abandonou a idéia da construção da torre.

Moderna Xangai aqui


10/01/2008 13:07





06. Tang, o Caçador
por Ji Yun (1724-1805)

 

Meu primo Zhong Han era juiz no condado de Jin. Nessa época, um tigre tinha matado vários caçadores na região e ninguém conseguia pegá-lo. As pessoas foram então procurar meu tio para que ele contratasse Tang, o caçador, para prender esse tigre, achando que ninguém mais seria capaz de fazer esse serviço.
De acordo com Daí Dongyuan, de Xiuning, a história desses Tang vinha desde a Dinastia Ming, quando existiu um caçador chamado Tang, que foi morto por um tigre logo depois de se casar. Sua mulher, grávida, deu à luz um menino e fez uma promessa:
“Se não conseguir matar tigre, nunca vai ser meu filho e todos os seus filhos e filhos de seus filhos que não conseguirem, também não serão meus descendentes”.
Devido a isso, todos os Tang, do sexo masculino, são especialistas em matar tigres.
Zhong Han sabia disso e enviou então alguém para chamar um Tang, separando uma boa quantia de dinheiro para pagá-lo depois do serviço feito.
Na sua volta, esses homens disseram que eles tinham contratado os melhores dos Tang e que eles chegariam a qualquer momento. Chegaram, mas era um era um velho com a barba e o cabelo brancos, que tossia e fungava a cada instante e um ajudante de 16 anos.
O juiz ficou muito desapontado com o que viu. Mas ordenou que a primeira coisa a ser feita era alimentar esses homens. Percebendo que o juiz parecia desapontado, o velho ajoelhou com um só joelho e disse:
“Estou ouvindo esse tigre por perto, no máximo a 5 li* do povoado. Melhor a gente ir logo. A gente pega o tigre e depois come alguma coisa”.
O juiz mandou então que um de seus homens servisse de guia e eles partiram.
Chegancdo na boca de uma ravina, os homens não seguiram adiante.Maso velho sorriu:
“Comigo aqui, como podem estar com medo?”
Quando eles já tinham quase descido o barranco, o velho olhou para o rapaz e disse:
“Parece que esse tigre está dormindo. Vai lá e dá um jeito dele acordar”.
O rapaz então urrou como um tigre e num instante o tigre veio de entre as árvores na direção deles e pulou sobre o velho. O velho permaneceu firme, levantando um pequeno machado, de oito cun** de cumprimento e quatro de largura. Quando o tigre estava para esmagá-lo, ele afastou-se de lado, e tigre pulou, caindo no chão todo ensanguentado. As pessoas reuniram-se em volta e descobriram que o tigre tinha sido cortado do queixo até a ponta do rabo, ao tocar no machado.
O juiz então recompensou com generosidade os caçadores Tang, agradecendo-os por sua ajuda.
O velho contou então que que tinha treinado seus braços e olhos por mais de dez anos. Ele conseguia encarar um tigre sem piscar, mesmo quando seus olhos estavam com um cisco. E os seus braços eram tão fortes que mesmo o homem mais forte não conseguia movê-los um centímetro.
Zhuangzi, o antigo filósofo chinês, disse uma vez:
“O que é feito com prática é sempre convincente. Uma pessoa que nasce hábil nunca pode ultrapassar quem pratica constantemente”
Isso deve ser verdade. Um homem chamado Shi Sibiao podia escrever no escuro de uma forma tão perfeita como se estivesse usando uma luz de vela. Eu ouvi falar também de Sua Excelência, Li Wnke (1628-1703), de Jing Hai, que separava 100 pedaços de papel e escrevia um caracter em cada um. Punha todos em pilha contra a luz e os 100 caracteres ficavam exatamente um em cima do outro, formando um único caracter, e isso não é mágica.

*1 li = ½ quilômetro
**1 cun = 3,3 centímetros

Ilust. Yongzheng, através de China History Forum


10/01/2008 08:34





07. Remédio para Cavalo
por Ji Yun (1724-1805) , em Notícias do Além, traduzido por Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Em Urumqi, um taoísta vendia remédios no mercado e algumas pessoas diziam:
Esse é feiticeiro. E dos grandes!
Ele tinha sido visto em um albergue e, pouco antes de dormir, abriu uma bolsa que trazia na cintura. De dentro da bolsa tirou uma menor. E nessa menor, pegou dois comprimidos de cor escura. Imediatamente duas mulheres belíssimas apareceram no quarto para dormir com ele. Elas deixaram o quarto de madrugada.
No dia seguinte, alguém perguntou como tudo tinha acontecido. Ele fez cara de desentendido. Negou de junto que soubesse alguma coisa.
Eu me lembro de ter lido nosTrabalhos Ininterruptos”, de Zhou Yuexi, uma explicação de que pessoas como esse monge taoísta são “caçadores de almas”. Como essa magia perde a eficácia se a pessoa comer carne de cavalo, e como um cavalo acabava de morrer na guarnição, enviei um ajudante com instruções secretas ao dono do albergue. Ele devia dizer ao taoísta que havia boa carne de cavalo e que ele estava convidado para comer um pouco.
O taoísta moveu a cabeça de um lado para o outro.
Carne de cavalo? Claro que não — disse.
Isso reforçou minhas suspeitas e decidi tomar providências.
Meu colega, general Chen Tiqiao, foi contra:
Que moças estejam com o taoísta é impossível saber, porque você não viu com seus próprios olhos. E não viu igualmente se ele come ou não carne de cavalo. Fiar-se a boatos não verificados para abrir um processo às pressas me parece perigoso. Nessa região, não se tem o direito de prender um indivíduo com base apenas na suspeita: melhor pedir a repartição competente para expulsá-lo do território e o assunto fica resolvido.
Estava pensando nos passos a dar quando o general Wen soube da história e disse:
Querer ir a fundo nessa questão é ir longe demais. Suponhamos que por medo de castigo esse homem confesse qualquer coisa. O assunto ficaria então muito grave e seria preciso tomar outras providências.
Como não existe nenhuma prova ainda, como fazer para pôr um fim nisso? Expulsá-lo do território não resolve, por que ele vai para outro lugar, dá um golpe e declara que viveu durante muito tempo em Urumqi. Quem ficaria com a responsabilidade?
Todas as guarnições devem interrogar, investigar, examinar todos os indivíduos de comportamento suspeito. Se existem provas reais, ele será entregue à autoridade competente. Caso contrário, melhor enviá-lo ao lugar de onde ele veio, para que ele não engane o povo. Não é uma boa solução?
Nós ficamos admirados com a sabedoria dos senhores generais.

10/01/2008 13:18





08. A Virtude da Paciência
por Xue Tao Xiao Shuo, traduzido por Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Um mandarim foi nomeado para o seu primeiro posto oficial. Ele recebeu a visita de um amigo, que vinha se despedir dele.
- Seja paciente, recomendou o amigo, se fores paciente, não vais ter nenhuma dificuldade no novo posto.
O mandarim disse que iria se lembrar do conselho.
Seu amigo repetiu a recomendação mais três vezes e a cada vez o mandarim dizia que iria se lembrar. Mas quando o mesmo conselho foi repetido pela quarta vez, ele irritou-se:
-Acha que eu sou um imbecil? É a quarta vez que me repete a mesma coisa!
-Estás vendo o quanto é difícil ter paciência? Bastou em dar o mesmo conselho duas vezes a mais e já ficaste com raiva.


10/01/2008 13:20





09. O Arco e a Flecha
por Han Feizi, trad. de Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Um homem contava vantagens da qualidade de seu arco:
-Olha meu arco. Ele é tão bom que nem preciso de flecha.
Outro vangloriava-se da qualidade de sua flecha.
-Olha minha flecha. Ela é tão boa que nem preciso de arco.
Nesse momento passava um mestre arqueiro que parou e disse aos dois contadores de prosa:
O que estão falando não tem sentido. Sem arco, como atirar a flecha? E sem flecha, como atingir o alvo?
Ele pediu então emprestado o arco e a flecha e começou a ensinar aos dois a arte do arco e da flecha.
Só então os dois faladores compreenderam pela primeira vez que um arco precisa de uma flecha e uma flecha precisa de um arco.

10/01/2008 13:24





10. O Tao do Bandido
por Conto popular chinês, trad. Márcia Schmalz e Sérgio Capparelli

 

Um aprendiz de ladrão entrou para a quadrilha do velho Zhang, um bandido muito famoso que roubava dos ricosmais de dez anos para alimentar e vestir milhares de pessoas. Uma noite, durante um baquete, o aprendiz pediu ao velho Zhang qual era o segredo de seu sucesso. Ele esvaziou seu copo, limpou a barba na manga da camisa e respondeu:
Toda arte verdadeira é um caminho que leva ao Tao. E o domínio de nossa profissão repousa sobre cinco virtudes: a inspiração, a coragem, a bondade, a prudência e a justiça.
Mas chefe — disse o aprendiznão é bem isso que se pode esperar de um bandido!
Fecha essa boca, ignorante, e presta atenção nas virtudes que devem ser observadas por um mestre-ladrão que deseja chegar a uma idade respeitável. Adivinhar onde está escondido o que deve ser roubado vem da inspiração. Ser o primeiro a chegar a esse lugar é fruto da coragem. Ser o último a sair, para dar cobertura aos seus homens, explica-se pela bondade. Avaliar se o golpe é muito arriscado tem origem na prudência. E repartir o produto do roubo é a virtude da justiça.
 
 

10/01/2008 13:30





11. O Imperador Gaozu Constrói Xinfeng
por Ge Hong (284-363), tradução de Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli.

O pai do Imperador Gaozu (? – 188 AC), da Dinastia Han, mudou-se de sua cidade Feng para a capital Chang’an* e foi morar no palácio. Ele ficou infeliz depois disso. O Imperador pediu às pessoas mais próximas de seu pai qual poderia ser a causa. Eles disseram que quando seu pai estava em Feng, ele passava o tempo falando com os açougueiros, com vendedores de rua mais interessados em vender bebidas, com vendedores de bolos, assistindo às brigas de galo ou jogando bola. Agora que tudo tinha acabado, ele se deprimia.
O
Imperador ordenou então que fosse construído um novo distrito, chamado Xinfeng**, em Chang’an e que as pessoas mais velhas de Feng se mudassem para esse lugar. Seu pai pelo menos achou boa a notícia. É por isso que desde então um grande número de desocupados moram no Distrito Xinfeng, mas não pessoas nobres.
Quando o imperador era jovem, ele muitas vezes fazia sacrifícios à Mãe Terra em Feng. Ele ordenou então a construção de um tempo idêntico no novo distrito. Quando Xinfeng e o templo ficaram prontos, as ruas e as construções eram idênticas às de Feng. E quando as pessoas de Feng andavam nas ruas, eles não tinham dificuldade alguma de reconhecer suas velhas casas. Conduzindo o gado pelas trilhas, eles podiam encontrar suas casas também sem hesitação. Com isso, as pessoas que se pudaram para Chang’an ficaram muito congtentes com a semelhança e elogiaram o arquiteto Hu Kuan. Eles o agradeceram muito e em um mês mais ou menos ele recebeu 100 onças de ouro.

 


*Chang’an: antiga capital chinesa, agora Xi’an.
**Xinfeng: significa,
em chinês, Nova Feng.

 


10/01/2008 15:48





12. Vende-se um Fantasma
por Cao Pi (187-226), traduzido por Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

  

Certa noite, quando era jovem, Zong Dingbo, de Nayang, encontrou um fantasma na estrada.
-
Quem é você? - perguntou Zong.
- Um fantasma -  respondeu o fantasma - e você?”
- Também um fantasma - mentiu Zong.
- E
aonde vai?
- Ao
mercado  de Wang.
- Eu também.
Eles andaram juntos durante alguns quilômetros. O fantasma então sugeriu:
- Estamos indo
muito devagar. Melhor um carregar o outro. Você me carrega um pouco e eu te carrego outro pouco. Assim vamos mais depressa.
- Boa
idéia!
Primeiro o fantasma carregou Zong por alguns quilômetros.
- Como você é pesado! É mesmo um fantasma?”  - perguntou o fantasma.
- Sou
fantasmapouco tempo, por isso sou pesado”.
Então chegou a vez de Zong carregar o fantasma, que não tinha peso nenhum. Não disse nada e os dois prosseguiram, um carregando o outro.
- É
que eu morri recentemente - disse Zong, depois de um tempo -  eu não sei o que nós, as assombrações, devemos mais temer.
- Do
que temos mais medo é de cuspe de gente.
Eles continuaram conversando até chegar diante de um córrego. Zong convidou o fantasma para passar primeiro, que passou sem fazer nenhum som. Mas na sua vez, Zong fez um splash.
- Como consegue fazer esse barulho? - quis saber o fantasma.
- Já disse, sou fantasma novo. Não estou acostumado a atravessar água. Me desculpa!
Chegando
perto do mercado de Wan, Zong pôs o fantasma nos ombros e começou a andar mais depressa. Gritando, o fantasma pediu que ele o pusesse no chão, mas Zong fingiu que não escutava, indo direto para o mercado. Quando tirou o fantasma dos ombros, ele tinha se transformado numa ovelha. Zong vendeu a ovelha bem depressa, cuspindo primeiro, para impedir que ela voltasse à antiga forma. Então deixou o mercado, levando quase 1.500 moedas.

10/01/2008 15:55





13. O Túmulo dos Três Reis
por Gan Bao, traduzido por Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Um dia o rei ordenou que Ganjiang e Moya, um casal do estado de Chu, fizessem um par de espadas para ele. O casal passou três anos fazendo as espadas. O rei ficou aborrecido com o atraso, ameaçando matar o marido. O par de espadas ficou pronto e, como era costume, uma era o macho e a outra, a fêmea.
A mulher de Moya estava esperando um filho e logo iria entrar no trabalho de parto. Seu marido disse:
“Como demoramos três anos para fazer as espadas, o rei deve estar muito brabo comigo. Quando eu levar entregar as espadas, pode ser que ele me mate. Se nosso filho for homem, quando ficar grande, diz para ele sair lá fora da porta, olhar para a Colina Sul. Ele vai enxergar um pinheiro crescendo na rocha e a espada está do outro lado.”
Ganjiang procurou então o rei, levando a espada fêmea. O rei não se coube de tanta raiva, ao examinar a espada.
“Tinha encomendado um par, mas está faltando o macho.”
De um golpe só, o Rei cortou a cabeça de Ganjiang.

Quando o filho de Ganjiang, chamado Chi, cresceu, ele perguntou ã sua mãe:
“Onde está meu pai?”
“Seu pai fez espadas para o Rei, mas demorou muito. O rei, furioso, cortou a cabeça dele. Mas antes dele procurar o rei, ele tinha me pedido pra dizer que você deve sair ali fora da porta e olhar na direção da Colina Sul. Nela tem um pinheiro numa rocha e a espada está atrás”.
O filho foi então até a porta e olhou para o sul. Ele não achou a colina mas viu um pinheiro crescendo num pedestal na frente da casa. Ele cortou o pinheiro com um machado e encontrou a espada. A partir desse momento ele jurou que iria se vingar do rei por causa da morte de seu pai.

Um dia o rei sonhou que tinha na região um rapaz de sobrancelhas bem separadas prometendo matá-lo. O rei ofereceu uma recompensa de mil moedas de ouro para quem prendesse o rapaz. Mas o rapaz, sabendo disso, fugiu. Um dia ele estava cantando uma uma canção bem triste na montanha quando um estranho chegou até ele e perguntou:
“Você parece muito jovem, cantar de um jeito assim tão triste?”
“Eu sou o filho de Ganjiang e o Rei de Chu matou meu pai. Eu vou me vingar dele.”
O estranho disse:
“Fiquei sabendo que o rei está oferecendo mil moedas de ouro pela sua cabeça. Se você me der sua cabeça e a espada, eu vingo a morte de seu pai”.
“Negócio feito”, disse o rapaz.
O rapaz então cortou de um golpe só sua própria cabeça e a entregou junto com a espada ao estranho, enquanto seu corpo permancia firme.
O estranho disse:
“Pode deixar, nosso acordo continua de pé”.
Nem bem acabou de falar, o rapaz caiu no chão, morto.
O estranho levou a cabeça de Chi para o Rei de Chu e o rei ficou muito contente.
O estranho disse:
“Essa cabeça pertence a um herói. Você tem de cozinhá-la em um caldeirão bem grande”.
O rei fez o que o estranho tinha dito. Três dias se passaram e a cabeça não tinha desmanchado, pulando furiosa dentro do caldeirão.
O estranho disse:
“A cabeça tem de se dissolver. Se Sua Majestade chegar bem perto e ficar olhando para ela, logo se desmancha”.
Quando o rei aproximou-se do caldeirão para olhar a cabeça, o estranho virou-se com a espada e a cabeça do rei caiu dentro da água fervente. Então o estranho pegou a espada, cortou sua própria cabeça, que também caiu dentro do caldeirão. As três cabeças logo ficaram desfiguradas e ninguém mais conseguia reconhecê-las.
As pessoas dividiram então os restos em três porções e as enterraram em um túmulo, que recebeu o nomem de “Túmulo dos Três Reis”. Ainda hoje esse túmulo pode ser visto no povoado de Yichun, no norte de Runan.

Guerreiro Ming

11/01/2008 19:57





14. O Tigre da Montanha que Devorava Homens
por Zhang Tu, tradução de Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Vivia outrora na província de Longxi (hoje, Gansu) um homem chamado Li Cheng, parente distante do imperador Tianbao.

Quando era jovem, Li Cheng tinha sido um estudante brilhante, apaixonado pela caligrafia chinesa. Depois de excelentes estudos e depois um início de carreira promissora na Administração Imperial, ele foi nomeado, contra sua vontade, chefe de polícia numa pequena cidade do interior.

Li Cheng detestava essa função. Achava que era um posto indigno dele. A amargura fazia com que ele fosse arrogante e algumas vezes, dizia aos seus companheiros.

Mas o que faço aqui, tão inteligente, junto de ignorantes como vocês?

Claro, ninguém gostava dele.

Depois de algum tempo, Li Cheng pediu demissão desse posto que detestava e passou a vive sozinho na sua casa, como um recluso, durante quase um ano. Depois disso, pela necessidade de ganhar sua vida, ele arrumou suas coisas e partiu para uma província do sudoeste, onde iria ser administrador. Como ele era excelente nessa função, foi muito estimado e se cercou de pessoas que admiravam sua erudição e sua inteligência. Um ano ou dois mais tarde, no momento de voltar àsua terra natal, os amigos que ele tinha feito no lugar o cobriram de presentes.

No caminho de volta, Li Cheng parou em um albergue ao de uma montanha. ele pegou uma febre súbita e começou a falar coisas sem sentido. Tomado por terríveis acessos de raiva, ele fazia com que a vida de seu ajudante fosse pior ainda, agredindo-o a todo instante. Depois de dez dias, Li Cheng piorou e desapareceu gritando dentro da noite.

Ninguém soube para onde tinha ido. Seu ajudante procurou-o durante algum tempo e depois ficou por ali, esperando. Depois de um mês, como não tivesse voltado, o ajudante sumiu com o cavalo de seu mestre e tudo o que ele tinha.

No ano seguinte, um homem chamado Yuan Zhan estava passando pela região, a caminho de uma missão imperial no sul. Ele ia a cavalo, com uma escolta importante. Certa manhã, quando se preparava para pegar a estrada depois de uma noite numa pousada, o dono da hospedaria disse para ele:

Não parta assim tão cedo! Na estrada, não longe daqui, esconde-se um tigre muito feroz, que devora quem dele se aproxima. Ninguém se aventura, a não ser durante o dia. Ainda está um pouco escuro. Espera mais um pouco.

Mas eu represento o imperador! — impacientou-se Yuan Zhan. Somos muitos, temos cavalos, não vai ser um animal da montanha que vai nos amedrontar.

E deu o sinal de partida.

Logo que a pousada desapareceu de vista, um tigre saiu de seu esconderijo urrando. Yuan Zhan deu um grito de terror. Então, para sua surpresa, ele viu o tigre dar meia volta e desaparecer novamente no mato. E logo uma voz se ouviu de uma touceira:

Incrível! Quase matei meu velho amigo.

E Yuan Zhan reconhecer essa voz. Era a de Li Cheng, amigo de infância e de juventude, que ele não viamuito temo. Adolescentes, depois jovens, eles tinham estudado juntos e estavam ligados de amizade, até que a vida os tinha separado.

Yuan Zhan não estava compreendendo nada. Primeiro, o tigre, e depois essa voz...

Ele perguntou:

Quem é? É o meu amigo Li Cheng, de Longxi?

Sim, sou eu, Li Cheng, teu amigo. Por favor, espera um pouco, para que possamos aparecer um para outro.

Yuan Zhan desceu do cavalo e foi na direção da touceira de bambu.

Meu amigo Li Cheng, há quanto tempo. O que aconteceu?

— E você? — respondeu a vozDesde que nos caminhos tomaram direções diferentes, tantos anos passados, não tenho notícias suas. O que aconteceu nesse tempo todo? Onde vai, nesse momento mesmo? Há pouco, vi passar dois orgulhosos cavaleiros, precedidos por um carregador com roupas imperiais. Me diz uma coisa, você é o corregedor do imperador, em missão oficial?

Sim, tive a honra de ter sido nomeado corregedor. Nesse exato momento, estou a caminho de Cantão.

Você é digno dessa função, com certeza - retomou a voz. - Você era um espírito refinado, e tinha, me lembro bem, a integridade absoluta exigida de todo corregedor. A você a nobre tarefa de ser vigilante em relação à honestidade dos representantes do imperador! Sim, nosso imperador escolheu bem ao nomeá-lo para este posto. Estou feliz com isso, do fundo do coração. Minhas felicitações!

Yuan Zhan respondeu:

- Nós tínhamos feito estudos parelhos. Rivais e inseparáveis amigos, lembra? Nós conseguimos juntos os diplomas, iguais no êxito. Depois o tempo passou muito depressa, não tivemos mais essa oportunidade de nos vermos nem de nos ouvirmos. No entanto, que alegria poder compartilhar com você essas reflexões. E que surpresa, hoje, de evocar assim uma amizade tão antiga.! Mas por que se esconde, em vez de vir aqui? É assim que a gente recebe um velho amigo?

Eu não sou mais um ser humano - respondeu a voz do outro lado dos bambus. -  Eu sou um tigre. Como ousaria aparecer diante de um amigo?

Yuan Zhan ficou sem voz durante algum tempo. Depois perguntou, tremendo:

Mas...como isso pode ter acontecido?

— Foi no ano passado - respondeu o tigre. Eu vinha do sudoeste, para voltar à nossa província. Uma noite, parei em um albergue, no da montanha. Do dia para noite, caí doente e endoideci. Corri para a montanha em delírio e bem depressa me descobri andando a quatro patas. Eu senti que meu coração ficou feroz, minhas forças foram multiplicadas por dez. Meu corpo cobriu-se de pêlo e diante dos viajantes na estrada, dos agricultores nos campos, dos pássaros ou de outros animais, tinha apenas um desejo, o de me jogar sobre eles e devorá-los. Um dia, a fome foi mais forte do que eu. Um homem passava por , eu o ataquei, eu o despedacei, eu o devorei sem deixar nada para trás. Desde então, é assim que eu vivo. No entanto, apesar de minha arrogância passadasim, eu era arrogante, bem sei — eu sonho ainda muitas vezes nas pessoas de quem gosto e nos meus amigos de antigamente. Mas eu violei a mais sagrada das proibições. E aqui estou, transformado numa fera. Como poderia aparecer diante das pessoas de quem mais gosto? É certo que você e eu estudamos juntos e éramos muito próximos um do outro. E agora, o que somos hoje? Você, com um cargo imperial, enche de orgulho os seus familiares e amigos. Eu, tenho de me esconder no bosque e o mundo dos homens ficou impossível para mim. Eu pulo e suspiro para o céu. Eu baixo a cabeça e choro calado. Perdido, eu estou perdido para o serviço dos outros.

Nesse momento, o tigre ficou em silêncio e começou a soluçar baixinho.

Mas se é tigre - disse Yuan Zhan - como consegue falar com uma voz humana?

meu aspecto mudou - respondeu o tigre. - Tenho ainda um coração de gente, uma inteligência humana. Mas sou bruto e impulsivo, provocando temores e ódios, incapaz de observar as regras de amizade e de hospitalidade. Eu suplico, não me esquece e perdoa meu comportamento. Mas se nossos caminhos se cruzarem de novo, pois logo vais passar por aqui na volta de Guanzhou, tenho medo de esquecer nossa antiga amizade e.... Cuidado, então! Não me deixa cometer um crime que me faria ainda mais desprezível!

O tigre deu um longo suspiro e acrescentou:

Dizer que éramos tão próximos! Posso pedir uma coisa?

Como eu poderia recusar algo a um velho amigo? — respondeu Yuan Zhan — O que é? Eu farei o impossível.

Obrigado - disse o tigre.- Sem essa resposta, não poderia lhe pedir nada. Depois que enlouqueci no albergue e depois que desapareci nas montanhas, meu criado partiu com meu cavalo e tudo o que eu tinha. Minha família deve ainda morar na mesma aldeia e sem dúvida eles se perguntam o que deve ter acontecido comigo. Quando voltar do sul, pode anunciar para eles que eu morri? Não diz mais nadanada do que ouviu hoje. Eu vou ser reconhecido para sempre se fizeres isso.

Yuan Zhan assegurou que cumpriria essa missão. O tigre suspirou novamente.

Não tenho mais nada nesse mundo. E meu filho é ainda pequeno para ganhar a vida. Você exerce uma função muito importante. E foi sempre um modelo de integridade e de lealdade para com os amigos. Nossa amizade era única. Se puder cuidar de tempos em tempos do meu filho, para que ele não se torne um mendigo, agradeço muito, e isso pelo menos deixaria minha alma em paz.

Ao dizer isso, o tigre calou-se e começou a chorar. Yuan Zhan disse para ele, chorando também:

— Do mesmo jeito que partilhávamos as alegrias, agora partilhamos nossas penas. Seu filho agora é meu filho. Farei o possível para ser digno da responsabilidade que me confia. Não se preocupe com o futuro dele.

Antigamente - retomou a palavra o tigre - eu escrevi alguns textos que nunca foram publicados e os rascunhos deles estão dispersos ou perdidos. Eu gostaria de ditá-los a vocêi. Poderia copiá-los? Mesmo se esses textos não forem publicados, pode ser que essas pequenas reflexões possam ser úteis aos meus descendentes.

Yuan Zhan pediu ao seu ajudante que lhe trouxesse papel e um pincel de caligrafia, para escrever o que o tigre estava lhe ditando. Ao todo, foram vinte capítulos curtos. O estilo era fluente, o sentido, profundo. Em muitas ocasiões, Yuan Zhan suspirava ao reler o que escrevia.

— Essas palavras vão dizer às pessoas da minha família o que eu tentei fazer - concluiu o tigre - e o homem que eu tentei ser. Nada me autoriza a esperar que minhas palavras terão um sentido para as futuras gerações, mas obrigado por tê-las posto no papel. E agora, segue sua missão, eu o atrasei muito. Vai depressa, porque sua escolta deve estar impaciente. Agora nossos caminhos se separam. Eu não vou lhe contar  a dor que estou sentindo.

Dando um triste adeus, YuanZhan voltou para a estrada. Seu primeiro cuidado, ao voltar, foi fazer com que a mensagem chegasse ao filho de Li Cheng, bem como um pouco de dinheiro para os funerais de seu pai. Um mês mais tarde, o adolescente foi à capital e bateu na casa de Yuan Zhan, para pedir alguma coisa que seu pai tivesse deixado. O corregedor ficou sem saída: ele revelou tudo ao filho de seu amigo. Em seguida, ele tirou de seu salário uma quantia mensal, para que o filho de seu amigo e a viúva de Li Cheng passassem dificuldades. Mais tarde ele tornou-se vice-ministro da Guerra.

 

 


12/01/2008 19:14





15. A Mulher Repetida
por Chen Xuanyu, tradução de Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Esse fato aconteceu no início do reino da Imperatriz Wu, numa cidade de Hunan, onde vivia um funcionário público chamado Zhang Yi. Ele era um homem simples e reservado, de poucos amigos. Ele não tinha tido filhos homens, apenas duas filhas, mas a mais velha tinha morrido quando ainda criança. A mais nova, Qian Niang, era muito bonita.

Zhang Yi tinha um sobrinho, Wang Chu, quase da idade de sua filha, inteligente e também muito bonito. Zhang Yi gostava de falar que esse sobrinho teria um futuro muito brilhante e brincava, dizendo: “no tempo certo, minha filha vai ser uma esposa ideal para ele”.

Nos seus sonhos secretos, Wang Cu e Qian Niang sonhavam com frequência um com o outro. Mas suas famílias ignoravam tudo, e quando, mais tarde, apareceu um rapaz muito distinto, que trabalhava para Zhang Yi e lhe pediu a mão de sua filha, seu pai concordou.

Essa notícia partiu o coração de Qian Niang e Wang Chu ficou muito decepcionado. Ele então disse que gostaria de se mudar do lugar onde trabalhava e aceitou um cargo na capital. Nada conseguiu fazer com que ele mudasse de opinião e foi autorizado então a partir, não sem antes receber muitos presentes.

Depois do último adeus, com o coração mortificado, Wang Chu pegou o barco que ia para a capital. No fim da tarde, o barco tinha avançado no rio muitos quilômetros, entre colinas muito verdes. Caiu a noite. Wang Chu não conseguia dormir. De repente, ouviu passos na margem. Pouco depois, os passos pararam diante do seu barco. Wang Chu, perplexo, reconheceu Qian Niang, de pés descalços.

Cheio de alegria, ele a tomou nos braços e perguntou de onde ela vinha. Ela respondeu, entre lágrimas:

— A força do teu amor nos uniu em sonho. Agora, contra minha vontade, querem me obrigar a casar com outra pessoa. Eu sei que vais me amar para sempre e eu prefiro morrer que viver sem ti. Por isso eu fugi.

Wang Chu ficou zonzo ao ouvir essas palavras. Jamais ele podia esperar tanto. Ele escondeu Qian Niang dentro do barco e eles partiram juntos, numa longa viagem, dia e noite. Alguns meses mais tardes eles se estabeleceram em Sichuan, bem longe de sua região natal.

Cinco anos depois, Qian Niang teve dois filhos. Ela nunca mais tinha escrito para seus pais, mas pensava sempre neles. Um dia, chorando, ela disse a Wang Chu:

Para te seguir, um dia, eu faltei ao meu dever filial. se passaram cinco anos que não vejo meus pais. Sinto falta do carinho deles e o céu nunca vai me perdoar por viver longe deles.

Emocionado com sua tristeza, Wang Chu respondeu:

— Vamos então voltar para o nosso lugar. Sofrer assim não tem sentido. Eles voltaram então à sua cidade natal. Na chegada, Wang Chu foi sozinho bater na porta de Zhang Yi para lhe contar tudo o que tinha acontecido. Mas Zhang Yi gritou:

— O que está me contando? Minha filha está no quarto, de cama, muito doente, faz anos.

Mas ela está no meu barco, nesse momento mesmo! disse Wang Chu.

Um pouco perturbado, Zhang Yi enviou um empregar verificar o que estava acontecendo.

De fato, Qian Niang esta , radiante e viva, impaciente para rever seus pais.

Como vai meu pai e minha mãe? — perguntou.

O criado, sem fala, correu para contar a ZhangYi o que acabava de ver.

Logo a jovem doente soube da notícia na sua cama, levantou-se, vestiu suas roupas mais bonitas, seus enfeites e passou no rosto. Depois disso, sorrindo e muda, ele desceu para receber a recém-chegada.

As duas avançaram, uma na direção da outra, e logo que se encontraram, seus dois corpos se fundiram em um , de forma perfeita. No entanto, esse corpo único vestia um conjunto duplo de roupas.

A família preferiu guardar segredo sobre o acontecido. Apenas as pessoas mais próximas ficaram sabendo. Os jovens esposos viveram ainda quarenta anos e seus dois filhos tornaram-se altos dignatários no reino.

 

Muitas vezes eu ouvi essa história quando era jovem. Há muitas versões e muitos acreditam que isso não aconteceu realmente. De minha parte, mais de 80 anos depois desses fatos, encontrei por acaso o juiz de Lai Wu, cujo pai era primo de Zhang Yi, e é o que ele me contou, de forma detalhada, que reconto aqui.


Ilustração Adan Scott


12/01/2008 19:33





16. Mudar as Montanhas de Lugar



por Liezi, período dos Estados Combatentes ( 475-221 aC)
recontado por Sérgio Capparelli


 

Meu avô tinha quase 90 anos e todo mundo dizia que ele era muito louco. E era. Mas eu gostava muito dele, principalmente pelas suas idéias malucas. Nessa época, ele disse que iria mudar de lugar as montanhas Taihang e Wangwu.
Claro, ninguém acreditou que ele fosse capaz de fazer isso.
No dia seguinte, ele saiu bem cedo para abrir caminho até o mercado de Hanying, como tinha prometido, para facilitar a venda de frutas e verduras.
- Essas montanhas ficam no caminho e atrapalham, pois tenho de dar voltas e voltas para chegar ao mercado. Aliás, não eu, mas todo mundo.
Ele começou a encher o cesto com pedras. No início não dei importância, pois queria saber se ele tinha uma mágica, que resolvesse tudo de vez. Mas ele não tinha. Encheu dois cestos, passou nas alças dos cestos uma vara de bambu e equilibrou essa vara no ombro e na nuca, distribuindo o peso em cada extremidade.
Quando ele passou na frente de casa, vovó perguntou:
- E onde vai jogar as pedras?
- No mar Bohai – ele respondeu.
Quando vovô voltou do Mar Bohai, decidi ajudá-lo. A gente quebrava as pedras, enchia com elas os cestos e íamos jogá-las no mar. O filho da nossa vizinha, que tinha nascido depois da morte do marido, veio nos ajudar e aceitamos.
Passamos a trabalhar de domingo a domingo, de primavera a primavera, e voltávamos para casa apenas uma vez por ano. Mesmo quem vivia criticando vovô, por causa de suas idéias malucas, se dispuseram a ajudar.  Meus tios, por exemplo. Meus primos. Os vizinhos e os vizinhos desses vizinhos. Sim, diziam, essas montanhas têm de sair do lugar.
Um homem que vivia na beira do rio duvidou de que meu vô conseguisse mover as montanhas, tentando provar essa impossibilidade com muitos cálculos.
-Ah, me desculpe, mas não vai conseguir – disse ele para o meu - Você nem consegue levantar sozinho um saco de batata, quanto mais uma montanha.
Meu avô olhou pra ele, coçou a cabeça, olhou as duas montanhas, procurou o Mar Bohai longe, pareceu que ia concordar, mas não concordou:
-Mesmo se eu morrer, meus filhos continuam meu trabalho. E se eles morrerem,  seus filhos, os filhos de seus filhos, os netos de seus filhos, os filhos dos filhos de seus netos. as montanhas não crescem mais. Por isso vamos continuar nosso trabalho.
 Ilustração Wang Leu, Dinastia Ming, Montanha Hua Shan

17/12/2007 09:18





17. O Homem que Queria Ser Peixe
por Li Fuyen, fim da Dinastia Tang, traduzido por Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

Xu Wei era um homem simples e sem histórias. Pequeno funcionário em um tribunal de província, ele passava os dias tranqüilos  em companhia de seus três compadres, Zhou, Lei e Pei.

Naquele ano, no início do outono, Xu Wei ficou doente. Depois de uma semana de delírio, parou de respirar. Nem reagia mais quando alguém dizia o seu nome. Parecia morto mas persistiam suspeitas de calor na região do coração. Seus parentes, recusando-se a enterrá-lo, sucediam-se no seu leito de morte.

Vinte dias depois, Xu Wei deu um longo gemido e sentou-se na cama. Depois perguntou:

-Quando tempo eu fiquei inconsciente?

-Vinte dias.

-Chamem depressa meus colegas Zhou, Lei e Pei, e  digam para eles virem aqui. Eles devem estar à mesa, prontos para comer uma carpa. Diga a eles que estou bem novamente e que gostaria de lhes contar uma coisa muito estranha.

Um servidor foi despachado até os três empregados do tribunal, que de fato estavam sentados à mesa, em volta de uma travessa com uma carpa. No mesmo momento em que eles ouviram a notícia, deixaram a tigela e os kuaizi e correram até onde estava Xu Wei.

Depois de alguns instantes de emoção pelo reencontro, Xu Wei perguntou:

 

-Me diz uma coisa, hoje, bem de manhã, vocês não encarregaram nosso intendente Chang Pi para comprar um belo peixe?

-Sim - eles responderam em coro.

Xu Wedi voltou-se para o intendente.

-Chang Pi, tu então foste na casa de Chao Kan, o pescador. Ele tentou te enganar, dizendo que tinha apenas uns peixinhos de segunda. Mas tu, tu descobriste uma bela carpa que ele tinha camuflado nos juncos e tu saíste de com ela. Ao entrar, passaste diante de um juiz, que jogava uma partida de xadrez com um sargento, nas arcadas. Depois tu viste Zhou e Lei no hall, jogando dados. Pei estava também, comendo peixe. Contaste para ele a mentira do pescador e eles ficaram com tanta raiva que prometeram esfolar vivo aquele cretino. Enfim, tu entregaste a carpa ao cozinheiro que foi logo prepará-la. Não foi assim que as coisas aconteceram?

Eles entreolharam-se e confirmaram o que tinham ouvido.Depois eles bocejaram:

-Mas...como é que sabes?

- Eu sei, porque essa carpa...era eu.

Eles então pediram que ele recontasse tudo do começo, pois não tinham entendido.

-Quando eu fiquei doente, começou Xu Wei, eu queimava de uma febre tão forte que eu sentia falta de ar. tinha uma idéia: me refrescar. No fim, não aguentando mais, peguei minha bengala e saí.

-Saíste. Como, se não deixaste a cama..

-Pode ser que eu estivesse sonhando, não sei bem. Depois de passar as muralhas  da cidade, de repente me senti livre, livre como um pássaro fora da gaiola. E era maravilhoso, mas muito maravilhoso mesmo! Primeiro fui até as colinas, mas, de novo, sentia falta de ar. Então desci para o rio. A água era calma e profunda, e lisa como num lago. Nem mesmo uma marola, um vinco, onde o céu de outono se admirava. De repente, tive vontade de entrar dentro dessa água. Deixei minhas roupas na margem e entrei.

- Na minha juventude, sempre tinha adorado água. Mais tarde, perdi o hábito de nadar. Coisa boa renovar esse prazer que sentia antes!

 

E de repente, me disse. Nadar é o máximo! Mas nada tão rápido como um peixe deve ser melhor ainda.

“Nesse momento, um peixe passa perto de me e me diz:

- Se esse é o seu desejo, nada mais fácil do que realizá-lo. Vai ser muito fácil virar peixe. Espera, vou providenciar essa mudança.

Pouco depois, vem na minha direção um homem com cabeça de peixe, bem grande, nas costas de um monstro marinho e seguido de uma grande quantidade de alevinos. Imediatamente ele começou a ler para mim um decreto do deus das fontes e dos rios:

            Viver com os pés no seco e nadar livre são dois modos de vida bem diferenes. As criaturas da terra  firme nada sabem da ondaou muito pouco e somente os que gostam de água.

Xu Wei manifestou seu desejo de nadar livremente. Retirado do reino infinito das águas, ele deseja voltar a ela. Renunciando à terra, ele renega o mundo mortal das ilusões.

Nós vamos satisfazer seu desejo.

Que ele se torne entãocomo experiência – uma criatura com escamas, uma carpa dourada dos Lagos do Leste, livre para viver dentro d’água. Mas atenção! Que ele não se bata contra os barcos, porque isso é um crime. E sobretudo, que ele não fique guloso, porque, se ele se esquecer que sob  a isca esconde-se um anzol, ele sofrerá mil mortes ao ar livre.

“E logo, meu corpo se cobriu de escamas. Felicidade! Coisa boa! Eu me jogo na água e nado onde me passa pela cabeça, salto sobre a crista das vagas nas profundezas mais secretas, eu culbuto e dou piruetas à vontade nos três rios e nos cinco lagos do reino...

Minha felicidade foi completa durante algum tempo. Todas as noites, como tinha recebido ordens, voltava tranquilamente para o Lago do leste.

Finalmente, a fome. E eu não conseguia nada para comer. Então comecei a seguir um barco. De repente, vi Chao Kan, o pescador, jogar a linha na água.

“Mmmm! A isca parecia bem gostosa. Maseu não ia car na armadilha e ser pego, não é mesmo! Pensei: “Vamos, tu és um homem inteligente. Momentaneamente transformado em carpa, tudo bem. Mas não vais assim mesmo cair nessa armadilha grosseira.”

Para não cair em tentação, distanciei-me da barca.  Mas a fome me trouxe de volta. Eu me dizia. Estou disfarçado de peixe, mas isso é apenas um jogo. Admitamos que o pescado me pegue, eu, uma pessoa respeitável. Ele certamente não vai me fazer mal. Eu lhe direi tudo e ele me reconhecerá e me levará de volta para a cidade.”

E então eu engulo a isca e, com ela, o anzol. Chao Kan me tira da água. Quando vejo sua mão se aproximar para me pegar, eu me contorço, grito para me soltar. Não adianta, pois ele não me escuta. Ele me passa um cordão nas guelras e me amarra nos juncos.

Pouco depois, Chang Pi chega para comprar peixe. Dos juncos, escuto a discussão.

-Só tenho uns bem pequenos, mente Caho Kan. E em vez de um, leva muitos.

-Ah, isso não. O sargento Pei me encomendou um dos grandes.

Nesse momento, o intendente olha para os juncos, me e me retira de .

Eu recomeço a gritar.

-Chang Pi, sou eu, Xu Wei, o assistente do magistrado. Peguei a forma de peixe e nadei pelas águas do reino, mas sou eu mesmo, teu chefe, e tu deverias se inclinar diante de mim!

Acha que ele me escutou? Que nada! Ele volta para a cidade, me balançando pelo caminho.

Quando eu passo na porta do recinto do tribunal, vejo o magistrado, os dois debruçados sobre o tabuleiro de xadrez. Um vez mais, grito com todas as minhas forças. Eles apenas erguem a cabeça e sorriem, ao me verem.

-Esse vale a pena, heim! – diz um.

-Um quilo, quilo e meio, no mínimo! diz outro.

No saguão passamos por vocês três, que jogavam dados. E tu, Pei, comias um pêssego. Vocês ficaram surpresos com o meu tamanho, e deu parabéns ao Chang Pi pela compra. Ele contou para vocês como o pescador tentou no início me esconder e Pei, furioso, falou que ia surrá-lo.

“E eu, durante todo esse tempo, dando o maior grito, repetindo que sou eu, Xu Wei, colega de vocês. Nada feito. Vocês me levam até a sala e me entregam para o cozinheiro. Ele me joga sobre a tábua de cortar carne, pega uma faca. Eu choro e suplico sem parar.

-Wang, Wang. Não estás me reconhecnedo? Corre e diz para os outros que se trata de um engano.

Mas Wang faz como se não ouvisse nada. Ele aperta minha nuca contra a tábua, levanta a mão e a faca...

Foi nesse mentno que acordei e mandei chamar vocês três.

Todo muito ficou estupefato. E todos tinham o coração apertado por essa carpa sem sorte.

No entanto, logo que eles a viram – o intendente, ao descobri-la nos juncos; o juiz e o sargento, que a tinha visto passar; os três colegas, que a tinham enviado para a cozinha; o cozinheiro, encarregado de a matartodos eles nada tinha ouvido, nem sentido alguma coisa difeerente.  Eles tinha visto apenas a boca do peixe se agitar em silêncio.

Os três  senhores ficaram então sem o prato de carpa e, a partir dessa data, nunca mais comeram peixe. Xu Wei recobrou a saúde, tornou-se conselheiro pessoal do juiz e morreu de morte natural muitos anos depois.

 


Ilustração de Chris Harman


14/01/2008 20:25





18. O Sonho da Borboleta
por Zhuangzi, traduzido do chinês por Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 Huizi estava procurando Zhuangzi. Encontrou-o cochilando debaixo de uma árvore.

- Acorda, Zhuangzi!
- Zhuangzi? Sou eu? Quem sou eu?
E contou que tinha adormecido e sonhado e que nesse sonho ele transformara-se numa borboleta. Havia batido asas aqui e ali, certo de que era uma borboleta.
-Voei e sentia um regozijo tão grande que logo me esqueci de que era Zhuangzi. E fiquei confuso: eu era essa magnífica borboleta que havia sonhado, ou era uma borboleta sonhando ser Zhuangzi?
Talvez Zhuangzi fosse borboleta. Talvez a borboleta fosse Zhangzi!
E concluiu:
- É esse o resultado da transformação das coisas.

19/01/2008 06:36





19. Zuo Ci, o Mágico
por Popular chinês, do livro Selected Chinese Tales of the Han, Wei and Six Dynasties Periods, bilingue, p. 159, Beijing, Foreign Languages Press, trad. Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 Zuo Ci, que também se chamava Yuanfang, nasceu em Lujiang e conhecia bem astrologia e os cinco clássicos. Ele percebeu que os problemas estavam se acumulando e que a Dinastia Han, entrava em declínio.

- Vivemos dias de degeneração e desordem – disse ele –. Pode ser fatal para um funcionário superior ostentar uma grande riqueza. Igualmente, não vale a pena procurar a fama ou o lucro.
Ele tinha estudado filosofia e era capaz de fazer mágicas incríveis, como, por exemplo, fazer com que os espíritos lhe preparassem comida refinada, sempre que ele quisesse. Praticava meditação no alto do Monte Tianzhu, onde tinha encontrado instruções sobre como fazer uma poção mágica, que lhe permitiria se transformar a qualquer hora. As maravilhas de que ele era capaz eram sem conta.
O Senhor Cao Cao ouviu suas proezas e enviou um emissário para trazê-lo à sua presença. Ele jogou Zuo numa cela e pôs guardas a vigiá-lo, deixando-o sem comer durante um ano inteiro. Depois disso, Zuo saiu da prisão forte e saudável. Cao Cao convenceu-se de que ele era um mágico, pois quem, a não ser um mágico, poderia ficar tanto tempo sem comer? Planejou então matá-lo. Zuo ficou sabendo desse plano e pediu permissão para ir embora.
- Por que ir embora? – perguntou Cao Cao.
- Porque mais cedo ou mais tarde o senhor vai me matar – respondeu.
Cao Cao negou que quisesse matá-lo, e permitiu que ele fosse embora, mas, antes, iria lhe oferecer uma festa.
- Já que eu vou embora – disse Zuo – vamos dividir um copo de vinho.
Cao Cao aceitou o convite.
Era inverno e o vinho, que tinha sido aquecido, estava muito quente. Zuo pegou um grampo de do cabelo e mexeu o vinho. Logo o grampo desapareceu, que nem um pingo de tinta num tinteiro. Cao Cão deu o copo novamente para ele, a fim de que bebesse primeiro. Mas Zuo simplesmente traçou uma linha no vinho com seu grampo, e o líquido dividiu-se em duas partes. Zuo bebeu uma metade e passou a outra para Cao Cao. E quando Cao Cao ficou desconfiado, Zuo ofereceu-se para beber ele mesmo o que restava. Depois de beber o vinho, jogou o copo no teto. O copo ficou grudado no alto, como se fosse um beija-flor.  Todos os hóspedes maravilhavam-se com o beija-flor, até que, copo de novo, caiu no chão. Mas nesse momento Zuo já tinha desaparecido, e Cao Cao ficou sabendo que ele tinha ido embora.
Cao Cao sentiu então mais vontade ainda de matar Zuo, para ver se ele tinha algum truque novo para escapar da morte. Ordenou que ele fosse preso, mas Zuo escondeu-se em um rebanho de ovelhas e seus perseguidores não puderam achá-lo. Quando eles contaram as ovelhas e acharam que tinha uma a mais, desconfiaram que ele tinha se transformado numa delas.
- Nosso Mestre quer apenas vê-lo – disseram – seria melhor que retomasse sua forma normal. Não precisa ter medo, porque nada vai acontecer.
Um grande carneiro adiantou-se no rebanho e ajoelhou-se para perguntar:
- Estão falando a verdade?
Os enviados de Cao Cao responderam:
- Claro!
Eles estavam a ponto de agarrá-lo quando todas as ovelhas – centenas delas - transformaram-se também em carneiros e ajoelharam-se para perguntar:
- Estão falando a verdade?
De novo, portanto, eles não sabiam a quem agarrar.
Mais tarde alguém conseguiu saber onde estava Zuo e o prendeu, não porque ele não conseguisse fugir, mas porque ele mesmo queria ser preso para exibir seus poderes sobrenaturais. 
Zuo Ci foi jogado numa cela. Quando o carcereiro chegou para torturá-lo, descobriu que havia dois Zuo, um do lado de dentro da cela e outro do lado de fora, e ele não distinguia qual era o verdadeiro e o falso.
Cao Cao soube disso ficou ainda com mais raiva, e ordenou que ele fosse executado na praça do mercado.  Mas novamente o perderam. Eles fecharam todos os portões da cidade para que ele não escapasse. Quando aqueles que nunca o tinham visto perguntaram como ele era, os homens de Cao Cao disseram:
- Ele é cego de um olho e veste uma capa e roupa preta. Se avistarem uma pessoa com essas características, podem prendê-la que serão recompensados.
Neste mesmo instante todas as pessoas na praça do mercado tornaram-se cegas de um olho e apareceram vestidas com uma capa e roupa preta, e assim Zuo não pôde ser capturado novamente. Cao Cao disse aos seus homens que prendessem todos os caolhos vestidos de preto na praça e as matassem.
Um dos homens de Cao Cao agarrou o primeiro homem e o matou, enviando a notícia do que tinha feito a Cao Cao, que ficou muito satisfeito. Mas quando o cadáver foi levado diante dele, descobriram que era apenas um monte de palha – o corpo tinha evaporado.
Mais tarde alguns homens de Jinzhow disseram que eles tinham visto Zuo Ci. E Liu Biao, o governador, determinou que ele fosse preso e executado por feitiçaria. Liu Biao reuniu suas tropas, e Zuo achou que ele quisesse era assistir a um pouco de mágica. Zuo aproximou-se Liu Biao e disse:
- Tenho um presentinho para cada um de seus soldados.
Liu biao falou:
- Você é um estranho e está sozinho. Existem muitas pessoas no exército – como poderia dar um presente para cada um deles?
Mesmo com a má vontade de Liu Biao, Zuo insistiu. E logo enviou um emissário para saber de que presente se tratava. Acharam um pouco de vinho e carne seca numa panela. Mas quando tentaram trazer a panela e o vinho, nem mesmo dez homens conseguiram. O próprio Zuo trouxe então a carne e o vinho para os soldados. Cortou a carne, e pediu que mais de 100 homens o ajudassem a distribuí os pedaços, junto com um pouco de vinho, a cada um dos homens. Cada um recebeu três copos de vinho e uma fatia de carne, que tinha o gosto de carne normal. No fim, cerca de 10 mil soldados comeram carne e beberam vinho, mas dentro da panela continuava a mesma quantidade dos dois alimentos. Havia também mil outros convidados neste banquete, e todos eles ficaram bêbados de tanto vinho. Liu Biao, muito impressionado, desistiu de matar Zuo.
Zuo foi para o reino de Wu, batendo na casa de um homem chamado Zu Duo, que entendida de mágica e vivia em Dantu. Alguns dos protegidos de Xu foram ao portão com cinco ou seis carros de boi. E mentiram:
- Xu Duo não está em casa.
Embora soubesse que essa afirmação não era verdade, Zuo foi embora. Logo os bois começaram a subir nas árvores. Os homens ficaram impressionados e subiram nas árvores, atrás dos bois, mas os bois desapareceram, e quando os homens desceram, os bois apareceram de novo nos galhos mais altos. Espinhos de quase 30 centímetros cresceram nas rodas dos carros de boi, e era impossível cortá-los, e as rodas não saíam mais do lugar. Os homens foram falar com Xu:
- Chegou um caolho. Achamos que ele era um tipo qualquer, e mentimos para ele, dizendo que o senhor não estava em casa. Logo os nossos carros de boi ficaram enfeitiçados. Pode nos dizer o que isso significa?
Xu disse:
- Ah, deve ser Zuo Ci. E vocês não deviam ter tentado enganá-lo. Se irem bem depressa, pode ser que consigam encontrá-lo.
Eles foram em direções diferentes e quando o encontraram, um em cada lugar, pediram desculpas pelo que tinham feito. E quando voltaram, o feitiço tinha acabado os bois estavam novamente nos carros.
Em seguida, Zuo Ci foi visitar Sun Ce, o senhor de Wu, que também queria matá-lo. Quando saíram para passear juntos, Sun convidou Zuo para que caminhasse na frente de seu cavalo, planejando apunhalá-lo pelas costas. Zuo Ci estava com uma vara de bambu, e começou a caminhar na frente do cavalo de Sun. Mas embora Sun batesse no seu cavalo, não conseguia alcançar Zuo. Percebeu logo que isso era devido aos poderes mágicos de Zuo Ci e desistiu.
Mais tarde Zuo Ci falou com um monge, chamado Ge Xuan, que iria para a Montanha Huo, para fazer uma poção mágica. E desde essa época ele nunca mais foi visto.

 

Ilust. Muddy Red Shoes


17/01/2008 16:35





20. A Origem do Bicho-da-Seda
por Popular chinês, do livro Selected chinese tales of the Han, Wei and Six Dynasties Periods (bilingue) p. 66-69, Beijing, Foreign Languages Press, trad. Márcia Schmaltz e Sérgio Capparelli

 

 

Há muito tempo, um homem partiu para uma longa viagem e deixou sua filha em casa, cuidando de um cavalo. Ela estava tão sozinha e com tantas saudades de seu pai que disse brincando para o cavalo:
- Se trouxer meu pai de volta, eu me caso com você!
Imediatamente o cavalo empinou, arrebentando as rédeas, e partiu a galope até onde estava o pai da menina. Surpreso e contente, o homem montou e o cavalo relinchou com tristeza, olhando na direção de onde tinha vindo.
- Deve existir alguma razão para isso – pensou o homem – Será que aconteceu alguma coisa em casa?
Voltou imediatamente. E como o animal tinha mostrado muita inteligência, tratou-o bem, dando-lhe comida extra. Mas o animal não queria comer e toda vez que a moça passava ele empinava de excitamento – e isso aconteceu em diversas ocasiões.
O pai, confuso, quis saber o que tinha acontecido e sua filha lhe contou a brincadeira que tinha feito.
- Não acredito! – exclamou ele – você não poderia ter brincado assim, pois pode significar a desonra de nossa família. Acho melhor  sair de casa por uns tempos.
Ele matou então cavalo e pendurou a carcaça num gancho no fundo do pátio.
Quando o homem saiu novamente para viajar, a moça e a filha do vizinho começaram a brincar perto do cavalo. A moça deu um chute nele e disse:
- Seu bestalhão! Como pode acreditar que eu me casaria com você? Morto e estendido – bem que mereceu essa sorte!
Quando ela estava falando, o cavalo empinou, envolvendo-a com sua carcaça, e partiu a galope. A filha da vizinha ficou muito assustada e não teve coragem de salvá-la. Correu para contar ao seu pai. Quando ele voltou e procurou pelos dois, tinham desaparecido, mas alguns dias depois foram achados no galho de uma grande árvore.
A moça e o cavalo tinham se transformado em bicho-da-seda, fiando fios de seda na árvore – e formando um grande e espesso casulo, de um tipo nunca visto antes. As mulheres da vizinhança, que usam esses casulos, lucraram muito com esses casulos incomuns.
As árvores onde esses casulos apareceram passaram a se chamar sang ou amoreira, que significa “perdido”. Desde então todo mundo as cultiva , e este é o bicho-da-seda que existe atualmente.
 

 

Ilustr. Jenny


17/01/2008 17:55





21. A Rã no Poço
por Zhuangzi

 Uma morava dentro de um poço abandonado. Um dia apareceu perto de sua casa uma grande tartaruga do mar.

Ela começou então a contar vantagens para a tartaruga, dizendo que era muito bom morar dentro do poço.
“Ah, como me sinto bem! É o melhor lugar do mundo. Quando tenho vontade, saio pra caminhar um pouco. Se estou cansada, descanso, apoiada nos tijolos fresquinhos que revestem as paredes de meu poço. Ah, no meu poço tem também muitas moscas. Nem preciso sair, me cansando, pra pegá-las. Estendo a língua e schwupt, recolho uma em pleno vôo.
Às vezes, bóio na água. Delicioso! Fico muito tempo boiando, pensando na vida, de papo pro ar. Outras vezes, nado de um lado pro outro, espirro água, faço uma confusão. Ou de noite, no meu canto, contemplo a nesga do céu estrelado, que ora se reflete nas águas, ora parece estar ao meu alcance. Ou brinco no barro. brincou no barro? Maravilhoso!
Olha essas caranguejos e esses girinos passeando em volta. Eles têm inveja de mim. Porque eu não posso me comparar com eles. Eu sou a dona do meu poço e do meu nariz. Eu tenho uma liberdade imensa. Se você quiser, pode me visitar de vez em quando.
Tanto falou a , que a tartaruga do mar ficou curiosa e quis entrar no poço. Mas não conseguiu passar pela entrada, muito estreita para ela. Penou para livrar o casco do limo e das ervas. E disse:
Você, , conhece o oceano? Ele ocupa boa parte do mundo, criando imensidões por trás de imensidões de água. Dentro dele existem poços de muitos quilômetros de profundidade, montanhas, florestas e milhões de animais marinhos.
Quando na terra chove semparar, enchendo rios, transbordando lagos, provocando enchentes, toda essa água vai para o oceano e ninguém nota a elevação do nível das águas. E se há seca, os rios secam, os lagos desaparecem, os lençóis d’água dentro da terra diminuem e ninguém nota se o nível das águas baixou alguns centímetros.
E quando estou em casa, nadando no meio das ondas, algumas de muitos metros de altura, ou passeando nas profundezas onde ninguém jamais chegou, percebo o quanto sou feliz de viver nesse imenso oceano.
Nesse momento, a , um pouco confusa, despediu-se, porque enão tinha nada para responder.



26/01/2008 18:11





22. A Antiga Cítara
por Liezi

 Havia entre os objetos preciosos que enchiam a sala do Tesouro imperial uma antiga cítara que ninguém ousava tocar depois de muitotempo. Conta a lenda que ela era feita de madeira de uma árvore que, em tempos imemoriais, tinha sido o rei da floresta de Longmen, um lugar de grande concentração de energia. Sua cabeça altiva dialogava com o vento e com as estrelas e suas raízes profundas alimentavam-se do sopro do Dragão da Terra. O espírito da árvore tinha um grande poder e o instrumento musical que o músico mágico tinha fabricado em tempos antigos com sua madeira era recatado e difícil de ser aprisionado.

Raros os músicos que conseguiam encordoar a cítara e mais incomum ainda os que conseguiam tirar delas sons melodiosos. Huangdi, o mítico ImperadorAmarelo, foi a o primeiro a tocá-la, compondo para ela árias esquecidas que, dizem, podiam sair à caça das nuvens ou trazer a chuva. Nos séculos seguintes, houve ainda alguns grandes conhecedores de música que conseguiram arrancar sons harmoniosos da cítara sagrada, como se ela os reconhecesse. Mas, depois de muitas dinastias, todos que tentaram tocá-la conseguiram apenas sons desafinados e lamentáveis cacofonias, sinal de que os verdadeiros músicos não existiam mais.
Um imperador quis então escolher o novo músico da Corte e recorreu a essa cítara, que ele mandou retirar da sala dos tesouros. Ele queria saber se existia alguém cuja arte tinha ainda algo de mágico ou se um talento desse tipo era apenas uma lenda de tempos antigos. Ele anunciou em todo o império os termos do concurso.
Poucos músicos apresentaram-se, com medo de passar vergonha diante do Filho do Céu. E foi com dificuldade que os músicos da Corte se submeteram à prova. O que eles mais temiam aconteceu: eles tiraram do instrumento apenas guinchos, grunhidos e coinchos, que levaram ao rosto do imperador e da Corte todo tipo de careta. Os poucos músicos vindos dos quatro cantos do império não trouxeram também qualquer satisfação à platéia.
Chegou então um músico errante, um desses andarilhos que se vestem com trapos, toca para os pássaros dos pinedos, para os peixes nas torrentes e para os peregrinos no pátio dos templos. Ele pegou a cítara, acariciou longamente sua caixa de ressonância, como se tentasse tranqüilizar um cavalo inquieto. Com uma mão, fez vibrar cada corda, apenas aflorando-a, e com a outra, dirigia os sons com um sorriso interior de uma mente que contempla a amada.
Uma melodia subiu docemente, vagas notas cristalinas foram se elevando e evanesceram como o fluxo e o refluxo das ondas nas margens de um lago. E de dentro desse tempo, que era outono, um vento morno soprou na sala. Ele chegou com o perfume das cerejeiras em flor. Os semblantes da nobre assembléia irradiaram uma alegria tranqüila. Os músicos reconheceram logo o tom Kiao, o da primavera. A música acelerou-se de repente e pegou a tonalidade Zhe. Um vento quente fez cricrilar os grilos debaixo das vigas e das traves, os pulsos reconheceram o chamado e os corpos entraram num torvelinho de vida. Os dignatários perderam o ar contido e seguiram os sons com movimentos da cabeça, balançando o corpo no ritmo da cadência. Alguns se levantaram e dançaram. A música ficou mais lenta, apoiada no tom Wu. Um vento glacial soprou seus lamentos entre as colunas de mármore e os flocos de neve voltearam na sala e se misturaram com as lágrimas da nostalgia no rosto da nobre assembléia.
A cítara deu suas últimas notas, que ficaram ressoando ainda durante muito tempo sob a abóbada do palácio. Depois fundiram-se, devagar, na vibração do silêncio, que se transformou em perplexidade presente. Depois de algum tempo, a voz do imperador tirou a platéia de seu estranho torpor.
Minhas felicitações. Você conseguiu chega ronde todos malograram. Acaba de seu escolhido o Músico da Corte. Diga o seunome e explique o segredo de sua arte.
O músico errante esboçou um tímido sorriso e disse:
Meu nome é Peiwu, Majestade. No meu humilde entender, os outros malograram porque eles queriam fazer as pessoas ouvirem sua música. Eu, ao contrário, deixei a cítara escolher seu repertório. Eu seria incapaz de dizer se foi Peiwu que tocou a cítara ou se foi a cítara que tocou Peiwu. Graças a esse instrumento divino, eu fui até o fim no meu sonho de músico e de agora em diante não preciso de mais nada. Esse foi meu objetivo ao vir até aqui.
Ele deixou a cítara aos pés do Imperador e passou pela grande porta laqueada de vermelho e de dourado. Quando o imperador saiu de sua estupefação, deu ordens para que trouxessem diante dele o Músico da Corte que tinha escolhido. Mas a neblina do outono tinha engolido sua sombra.



26/01/2008 18:39





A assombração

 Zhuangzi

 

 

O Duque de Huan estava caçando em meio a floresta, enquanto Guanzhong guiava o coche, de repente o duque de Huan viu uma assombração. O duque de Huan segurou na mão de Guanzhong e perguntou:
— Guanzhong, você viu?
— Eu não vi nada.
Depois de voltar da caçada, o duque de Huan caiu acamado devido ao susto, não saindo de casa por vários dias seguidos.
O príncipe Gao’ao, sábio do reino de Qi, disse ao duque Huan:
— Você está fazendo mal a si mesmo, como é que uma assombração poderá lhe fazer mal? O rancor reprimido, que não consegue se dissipar faz com que fique com suas forças exauridas. O rancor contido faz com que as pessoas se irritem com facilidade ou afeta a memória; enfim, o rancor não dissipado faz as pessoas ficarem doente.
— Mas... existem ou não assombrações? — perguntou suplicante o duque Huan.
— Existem. Dentro da lama, dentro do fogão, dentro das residências, em todos os cantos das paredes, dentro da água, nas colinas, nas montanhas, nos lugares inóspitos existem as assombrações errantes e na floresta a assombração serpenteante.
— Como é a forma da assombração serpenteante?
— A assombração serpenteante tem o tronco grande como a roda e comprido como o varal da carruagem, veste uma túnica roxa e um chapéu vermelho. Este tipo de assombração o que mais detesta é o ribombo  do trovão, ao ouvi-lo fica de pé segurando a cabeça. A pessoa que o vê é capaz de se tornar déspota.
Ao escutar a explicação toda, o duque de Huan caiu em gargalhadas e disse:
— Foi essa assombração mesma que vi.
Levantou, se vestiu, e continuou a conversar com o príncipe Gao’ao. No dia seguinte a doença sumiu.

Ilustração: folktale


13/12/2008 20:50





A história da lua

 Changxi, esposa do deus celestial, depois de esperar por doze meses, deu à luz a doze luas idênticas, cada qual com um rosto redondo, muito branco e brilhante, da qual uma prateada luz iluminava a escuridão da noite. A deusa adorava-as mais do que tudo e dava muitos banhos a elas para manterem as suas peles alvas.

Um dia, as doze irmãs saíram para passear pela Terra e foram logo seduzidas pela sua beleza: a vastidão das pastagens e das florestas, a imensidão dos rios e dos mares, as altas montanhas, a exuberância das flores e pelo canto dos pássaros. Elas nunca tinham visto nada parecido no céu. Estavam se divertindo muito, quando um de seus irmãos, o sol, encerrava a sua tarefa diária e posava ao oeste.
Lentamente a escuridão caiu sobre a terra e elas perceberam de como a terra se torna apavorante devido à falta de luz e ficaram com muita pena dos humanos de terem de se encontrar no escuro.
Depois de discutirem o assunto, chegaram a uma conclusão: que poderiam continuar a iluminar a noite, devido à luz que irradiavam. E decidiram a se revezarem como os seus irmãos sóis, trazendo a luminosidade à noite, para que os humanos não sentissem medo por causa da escuridão.
A decisão delas obteve a concordância de sua mãe, Changxi, que muito apreciou a conduta nobre delas. A deusa arranjou um mês para cada uma das doze filhas que resulta justamente em um ano. A cada vez que a escuridão começa a tomar conta da Terra, elas sobem devagar em direção ao alto do céu para se dirigem em direção ao oeste para se recolherem.
A partir daí, a noite se tornou clara e iluminada. Os homens e mulheres ficaram muito contentes, por que poderiam descansar e conversar sob o luar e as crianças podiam brincar mais. O luar trouxe a inspiração aos poetas, que compuseram as mais lindas poesias que são entoadas até hoje.
A deusa Changsi foi morar com suas filhas e depois de as banharem, sempre as acompanha na jornada por sobre a Terra. Como as luas são muito vaidosas e tímidas, todas as noites vestem-se de forma diferente. E por serem mulheres, não aparecem no céu alguns em alguns dias do mês. Finalmente, para não atrapalhar a escala feita, elas não substituem uma às outras e, assim, alguns dias do mês ficam sem lua.

Ilustração followorion


13/12/2008 21:06





A verdade sobre os fantasmas

 Autor: Huang Juncai

 
Antigamente vivia na nossa cidade um senhor já de certa idade, charmoso e muito irônico, chamado Chen Caiheng.
Ele passeava uma tarde já quase no campo quando cruzou com dois homens que traziam duas lamparinas.
Ele quis acender seu cachimbo nas chamas das lamparinas, mas não conseguiu. Não tinha jeito. O cachimbo continuava apagado.
Nesse momento, um dos desconhecidos lhe fez uma pergunta intrigante:
— Já passou sua primeira semana?
— Bah — exclamou ele — Não, ainda não.
— Então está explicado — respondeu o desconhecido. — Ainda tem um pouco de energia vital do mundo da luz. Não vai conseguir nada com o fogo do mundo das sombras.
Ele deu-se conta, de repente, que estava falando com mortos. Achou então melhor fingir que era um deles.
— Parece, disse ele, que os vivos sentem muito medo da gente, de nós, os fantasmas, não é mesmo?
— Hum, eu diria antes que somos nós que temos medo dos vivos.
— Medo dos vivos? O que eles têm assim de tão ameaçador?
— Pra começar, eles têm o cuspe.
Nesse momento, Chen reuniu saliva na boca e deu uma cusparada na direção deles.
Eles deram três passos para trás.
— Ué, mas ‘ocê não é um fantasma!
Chen deu uma risada.
— Um fantasma, eu? Claro que não. Mas sou quase um. A prova? Consigo cuspir em vocês.
Ele cuspiu de novo e desta vez acertou. Eles encolheram e ficaram a metade do que eram antes.
Ele então cuspiu pela terceira vez e os fantasmas desapareceram no mesmo instante.
 



13/12/2008 20:32





Matar tigres

 Zhuangzi

 
Certa vez os guerreiros Guan Zhuangzi e Guan Yu vinham por um caminho quando encontraram dois tigres brigando por carne humana. Guan Zhuangzi imediatamente pegou a espada para matar os tigres.
— Não faz isso — gritou Guan Yu.
Guan Zhuangzi quis saber o motivo:
— Está sentindo medo?
— Os tigres gostam muito de carne humana — explicou Guan Yu. — E ficam ferozes se são interrompidos quando estão comendo. Veja bem, são dois tigres lutando pela comida. O mais fraco deles será morto. Além disso, o sobrevivente estará ferido por causa dessa luta. Basta esperar e matar apenas um. Todo mundo vai saber que você matou dois tigres, mas se fizer do jeito que falo, não será com muito esforço.
Guan Zhuangzi decidiu seguir esse conselho. Pouco depois, quando um dos tigres estava morto, ele matou o outro sem muito esforço.
 

13/12/2008 22:04





Nas asas da borboleta

Conto popular

 
Chang ergue o pincel de pêlo de coelho e contempla o poema que escreveu sobre a rocha. Sua caligrafia é segura e graciosa. O sol brilha no céu e vai apagando o que foi escrito. Porque Chang escreve na rocha seus poemas com água. E pouco depois de escritos, os versos se apagam.
Chang não escreve para outro público que não seja o céu. As pedras. As águas. As árvores. O vento. Os pássaros. Os peixes. E às vezes, são os próprios poemas que vão se escrevendo, no movimento das cerdas do pincel.
Chang tem agora os olhos fechados. Um raio de luz dança na sua cabeça raspada. Uma borboleta pousa nas dobras de sua roupa. Ele olha as nervuras frágeis das asas coloridas da borboleta. Ele sabe aquelas asas são como um mapa. Se procurar, encontrará nelas o poema perfeito. Ou a verdade que existe nas muitas verdades. Basta ler com cuidado. E Chang sabe que tem pouco tempo.
Chang avista um arado. O mar. Palácios. Ele avança com o olhar pelos desvios traçados nas asas da borboleta. E de repente, Lao.
“Enfim, Lao, nos reencontramos”.
Esse homem, com o rosto impresso nas asas da borboleta, foi outrora um camponês cuja miséria era tão grande que ele não agüentou e um dia enlouqueceu. Despertando de manhã, certa vez, ele convocou todos os seus empregados. Mas Lao nunca tinha tido empregados, nunca tinha sido servido, nem por homem, nem mulher, criança ou cachorro.
Seu filho, contemplando aquela majestade ridícula estampada no seu rosto, compreendeu que Lao não tinha conseguido sair do sonho daquela noite.
Sacudiu-o, sem ternura, mas não conseguiu trazê-lo novamente para o mundo sólido das sólidas coisas do mundo. E Lao então ficou no canto escuro da sua casa miserável, perfumando-se com perfumes imaginários, envolvido pelas mãos delicadas de uma mulher, também imaginária, que o servia.
Depois de sair o sol, ele sentou-se na praça do povoado e convocou seus súditos. Homens, mulheres e crianças aproximaram-se curiosos, rindo e zombando dele. No meio da multidão, ele sorria, porque os outros rostos também sorriam, certamente de satisfação porque o tinham como senhor, pobre Lao.
Ele iniciou então um baquete imaginário, enquanto as pessoas lhe jogavam tufos de grama, folhas de árvore, cascas frutas, que ele ia comendo devagar, como se fossem finas iguarias. No fim, mandou cumprimentos aos cozinheiros, por tão grande habilidade na cozinha.
As pessoas, cansadas de zombarias, deixaram Lao no meio da praça, arrotando seu banquete imaginário. Assim ele instalou-se numa opulência fictícia e durante um ano viveu uma vida irrazoável, mas feliz.
Foi nessa época que Chang, cansado da vida na cidade, decidiu viver algumas semanas no povoado daquele que, agora, era apenas o “Simples”.
Nessa época Chang era o mais famoso médico do império. Logo que avistou Lao andando alegremente nos labirintos de sua loucura, foi tomado do desejo de exercer sobre ele a arte de seus conhecimentos. Não por generosidade nem pelo gosto do reconhecimento, mas apenas pela íntima e devoradora ambição: vencer o dragão da demência.
Ele então entrou também dentro dos labirintos da demência de Lao, lutando contra as sombras, até que no oitavo dia, conseguiu que Lao acordasse lúcido.
Ele acordou lúcido, sem a capa de proteção de sua demência, e achou seu corpo emaciado, seus olhos vermelhos e reencontrou a miséria. Ele perguntou-se, então, que pecado eu cometi, para voltar assim ao inferno, depois de um ano no paraíso?
Chang respondeu:
“Amigo, teu desespero me deixa alegre porque ele é uma prova de que estás curado. Meu trabalho chegou ao fim. Posso agora me retirar”.
Lao puxou-o pela manga e disse:
“Cínico! Olha bem para minha pele cheia de crostas, veja meu corpo miserável, minhas costelas purulentas, meu rosto amargurado. Como consegues dizer que me devolveste a saúde?”
“É bem verdade”, disse Chang, “que estás magro e mal vestido. Eu te aconselho a vestir alguma roupa de lã e a comer de maneira razoável, pelo menos duas vezes por dia. Se não tens dinheiro para pagar esses remédios elementares, nada posso fazer. Eu cuido da loucura das pessoas e não das loucuras da sociedade”.
Chang foi embora contente. Lao, desesperado, enforcou-se numa das vigas de sua casa.
No dia seguinte, o filho de Lao entrou com um processo contra Chang. Segundo ele, o médico havia envenenado a alma de seu pai e tinha ido embora sem se preocupar com os danos que havia causado.
Os moradores do povoado foram interrogados um por um e pareciam todos de acordo: Chang tinha quebrado a serenidade do Simples. Devia ser punido, portanto. O juiz mandou chamar o médico, que fez sua defesa com simplicidade.
“Meus conhecimentos trazem a cura aos loucos”, disse ele, “e por isso eu faço o bem. Eu apenas trouxe Lao de volta, porque sua felicidade era ilusória”.
“Mas toda felicidade não é ilusória?”, quis saber o juiz. “E tu mesmo, Chang, que precipitaste nas trevas da morte esse camponês miserável, apenas para ter o prazer orgulhoso de despojá-lo de uma ilusão, tu também não mostras que estás louco, agindo assim?”
Chang não respondeu. O Juiz leu a sentença:
“Homem sabido, mas pouco sábio, vais viver solitário a partir de agora.           E para não ser tentado a se perder na própria loucura, serás condenado também a quebrar todos os espelhos. Nós esperamos que Lao, o Simples, um dia te perdoe. Vai, e que tua presença não seja uma sombra para o nosso olhar.
Hoje, vinte e sete anos se passaram, talvez mais. Chang não é mais assim, tão sem razão, a ponto de contar os dias, porque todos os dias são iguais uns aos outros, regressando sem cessar por diferentes artifícios, como as estações ou o capricho das nuvens.
Chang deixou de lado a canga de seu orgulho. Ele sabe agora que tudo é ilusão. Ele pega uma das pedras onde havia escrito seus versos e a joga nas águas. O espelho do lago se quebra, mas por um breve instante ele pode nele se contemplar. A borboleta voa e o homem sábio adormece na sombra de um salgueiro agitado pela brisa.
 

 

13/12/2008 20:56





Nüwa, a deusa criadora dos homens

Diz a lenda que o deus do céu, Hua Xu, deu à luz a gêmeos. O de sexo masculino se chamou Fu Xi e o de sexo feminino se chamou Nüwa. O corpo de Fu Xi é coberto de escamas, enquanto Nüwa tem a cabeça de humano e o corpo de serpente. A deusa tinha um imenso poder, era capaz de mudar de forma mais de setenta vezes por dia.
Havia pouco tempo que ocorrera a separação entre o céu e a terra e não existiam seres humanos, por isso Nüwa pegou um punhado de lama e moldou a sua imagem e semelhança várias crianças, mas algum tempo depois, ela se cansou. Pegou então uma corda e embebeu-a na lama e balançou-a em meio ao céu e os pingos de lama que caíram sobre a terra, também se transformaram em seres humanos. A partir desse ato da deusa passou a existir a diferença de classe social: os que foram moldados pela própria Nüwa se tornaram ricas e os seres humanos feitos pelos pingos de lama que caíram na terra, se tornaram pobres.

No noroeste da China existe uma montanha chamada Imperfeita, que ganhou este nome devido à fúria de Gonggong, o deus das águas, ao ser derrotado na guerra pelo trono. Impetuosamente, ele se jogou contra à montanha, um dos pilares de sustentação do céu, que desmoronou e arrebentou a corda que segurava a terra. Logo, o céu se inclinou para a direção noroeste e a terra afundou em direção sudeste, fazendo com que o sol e a lua nascessem ao leste e se pusesse ao oeste, e os cursos dos rios desviaram-se para o mar oriental, provocando uma grande inundação por toda a parte. Da grande fenda do céu, jorrava também água sem parar, gerando muitas mortes. Nüwa vendo os seus filhos em tamanho apuros, deu-lhe um aperto no coração e decidiu pôr as mãos à obra para os salvar.

Ela colheu do fundo dos rios várias pedras multicoloridas, acendeu o fogo e fundiu as pedras até chegar ao estado de cola e a utilizou para remendar a fenda do céu. Como ela temia que o céu despencasse outra vez, cortou as quatro patas de uma gigante tartaruga marinha para servirem de pilares nos quatro cantos da terra, como se o céu fosse um pano que cobrisse a terra. A partir daí nunca mais os seres humanos precisaram se preocupar que o céu caísse-lhes sobre a cabeça.

Mas ainda existiam muitas catástrofes devido ao céu ter despencado. Na região de Ji, um dragão negro se revirava no rio a fim de provocar inundação daquele local. Nüwa matou-o, bem como aproveitou e dispersou as feras para lugares bem longe dos humanos.

Mais ainda havia muito a se fazer, pois as inundações provocaram muitas doenças. Nüwa queimou os juncos em cinza e amontoou-os em formas de barragens para conter as águas, e assim, surgiram os continentes para os seres humanos habitarem.

Depois de todo esse trabalho, a paz voltou a reinar e a Terra a prosperar, mas Nüwa sentiu-se muito cansada e se deitou. Seu corpo se desintegrou e se transformou em muitas coisas, entre elas, dez deuses que guardam a inteligência e a genialidade.
Em Shan’haijing, o Livro das Montanhas e das Águas.

03/12/2008 17:38





O amestrador de tigres

 Liezi

 
Um dos melhores amestradores da China chamava-se Liang Yang. Ele treinava qualquer tipo de animal, de lobos a tigres, de águias a serpentes. Mas Liang Yang estava envelhecendo e, caso morresse, não haveria ninguém para substituí-lo. O rei Xuan ordenou então que Mao Qiuyuan aprendesse com ele suas habilidades de amestrador.
— Eu não tenho nada para lhe ensinar — disse Liang Yang — Acontece que se você disser isso ao rei, ele vai achar que estou de má vontade.
Mao Qiuyuan escutou em silêncio o que lhe dizia Liang Yang. Começou então a observar como o amestrador entrava na jaula do leão, acariciava sua juba durante algum tempo e saía logo depois. Nesse momento, a pantera negra urrou debaixo de uma figueira. Liang Yang aproximou-se dela, os dois observaram-se durante algum tempo, até que Liang Yang pareceu lembrar-se de que Mao Qiyuan ainda o esperava.
— E então? — Quis saber Mao Qiyuan.
— Eu vou te falar um pouco sobre cuidados que você tem de ter. Alguns animais ficam muito bravos quando são desobedecidos. Cuidado com eles! Um amestrador, por exemplo, não ousa dar ao tigre animais vivos para comer, pois logo eles ficam bravos e impacientes. Não se pode também dar aos tigres um animal inteiro. Os tigres não gostam. Preferem a comida dada aos poucos. Além disso, um amestrador tem de saber quando o animal está faminto e o que pode irritá-lo. Embora tigres e homens sejam de espécies diferentes, os tigres vivem muito bem com seus criadores porque esses amestradores conhecem bem a vontade dos tigres e nunca os desobedecem.
´Eu nunca desobedeci meus tigres, deixando-os furiosos ou agradei-os, com obediência em demasia. Freqüentes alegrias são seguidas de repetidas fúrias e repetidas fúrias de alegrias: nenhuma dessas situações pode ser boa. Sendo assim, fico calmo e tranqüilo e nunca sou obediente ou irritante em excesso. Nos olhos dos animais e dos pássaros, somos da mesma espécie. Eles vivem no meu pátio como se ele fosse deles, nunca sentindo saudade da floresta, do mar, da montanha ou do vale.

13/12/2008 21:46





O caso do prefeito Dong

 Gan Bao

 
 
 
 O prefeito Dong fez 40 anos e morreu poucos dias depois de uma febre maligna. Sua casa parecia amaldiçoada. A primeira mulher tinha morrido três anos antes. Depois, ele casou-se novamente com uma belíssima mulher. Jovem, cheia de vida e amorosa. E antes que o prefeito Dong tivesse descendência, foi levado deste mundo pela febre.
A viúva, Feng Li, passou dois dias prostrada, chorando a morte de quem tinha sido seu único e grande amor. Um amor que havia durado anos, pois ela, desde criança, havia se apaixonado por ele, naqueles amores ardentes, contidos e impossíveis.
A morte da primeira esposa de Dong foi um sinal. O incêndio subterrâneo que consumia Feng Li, propagando-se pela turfa do seu ardor juvenil, voltou à superfície. Mas não ressurgiu arrebatador, como da primeira vez, mas na forma de flores de pessegueiro despetalando-se sobre o Lago Tian.
Todo mundo no povoado conhecia o prefeito Dong. Sua bondade. Suas virtudes excepcionais. Sua disposição em ajudar quem tivesse necessidade. E um dia, durante uma visita que os pais de Feng Li fizeram a Dong, ele percebeu enfim sua rara beleza e algum tempo depois se casaram.
Nisso Dong morreu. E estava ali, agora, no leito, ainda nupcial, seu corpo, que em breve seria levado embora, como um último sopro, de olhos úmidos, sobre sentimentos tão intensos. Foi nesse momento que Fen Li ouviu um profundo suspiro. O suspiro transformou-se em gemidos e esses gemidos vinham de onde se encontrava o prefeito Dong.
Sim, era ele. Pequenos movimentos. De início, quase imperceptíveis. Depois, mais agitados. E era ele, enfim, que despertava, movendo os lábios e pedindo um copo d’água. E ao falar, a voz era bem a sua, Dong, o prefeito. Bebeu um pouco de chá, pensativo, com os olhos semi-abertos, ainda não habituados com a luz, mas o brilho das pupilas não conseguia esconder pequenas nuvens escuras criando uma atmosfera de preocupação.
Ele bebeu um pouco de chá, sentou-se no leito e pediu que Feng Li chamasse alguém para tomar notas, pois ele tinha tido um sonho bastante estranho para contar. Com as costas apoiadas no travesseiro, esperou a chegada dos criados e então, com todos em volta, começou a contar:
Na noite passada, disse ele, na terceira batida do sino, uma voz me chamou pelo nome. Eu fui até à varanda e percebi no jardim um desconhecido, com roupa de um altofuncionário do Palácio. Ele estava perto de um carro, com dois cavalos atrelados. Mantilhas brancas, que cintilavam à luz do luar, cobriam os dois animais.
Ele disse que tinha uma convocação oficial no meu nome e, em seguida, apertou meu braço com punhos de ferro e me fez subir na carruagem que imediatamente se pôs em movimento, depressa, depressa, veloz, cada vez mais veloz, quase voando. Nós passamos os portões da Prefeitura, escancarados àquela hora da noite, e avançamos na escuridão.
As sombras das árvores também eram velozes, deslizando vertiginosas ao nosso lado, e de repente fomos engolidos por densa neblina. Não demorou muito e a neblina foi se adelgaçando, em farrapos, que contornavam uma imponente muralha, em volta de uma cidade imensa, certamente capital de algum reino distante.
Depois de andarmos ao redor da muralha, escura, como picumã, chegamos a uma porta pintada de vermelho. Ela era flanqueada por duas torres, com as bases na forma de um animal estranho e dessas torres saíam barrotes, que tinha nas extremidades cabeças de mortos recentes ou peles humanas esfoladas que drapejavam como estandartes. Com a nossa aproximação, os dois batentes abriram-se rangendo de um jeito sinistro.
A cidade era recortada por ruas largas, que serviam de limite para uma grande quantidade de quarteirões, palácios, templos e edifícios oficiais. A carruagem parou no pátio interno de um deles e, depois de me fazerem subir por uma escada majestosa, meu guia me conduziu a uma sala de audiências onde estavam três juízes.
Meirinho, disse um deles, me traz o arquivo de capa preta, com um laço roxo, aberto na página de um homem chamado Dong, que exerce a função de Prefeito no Império do Meio.
Depois de um tempo um tanto longo, mesmo em termos de burocracia, a voz do juiz cortou novamente o silêncio:
— Meirinho! O que está acontecendo? Por acaso estádormindo em cima dos registros?
— Queira me desculpar, senhor, não consigo achar o nome do Prefeito Dong.
O juiz começou a trautear sobre o tampo da mesa, arrancando sons secos que logo se espalharam no ambiente. Dessa vez sua voz soou condescendente:
— Tome alguma iniciativa, caro amigo. Estamos perdendo um tempo precioso. O tribunal está atravancado de processo nesses tempos difíceis, disse ele, procura então um arquivo vermelho, o dos casos em litígio.
O meirinho trouxe um novo arquivo, de onde foi retirando folhas de papel amareladas. No fim exclamou:
— Eu bem sabia que estava consignado aqui! Dong, prefeito do Império do Meio. Homem virtuoso, de uma compaixão sem nome e de uma retidão exemplar. Caso muito raro na administração da Dinastia atual. Fez muitas coisas boas e ajudou muita gente sem se importar com posição ou riqueza. Morre aos 40 anos sem deixar descendência.
Os três juízes falaram em voz baixa durante alguns momentos e depois o presidente do tribunal declarou num tom solene:
— Deve ter algum erro aqui. Trata-se, sem dúvida, da negligência de algum funcionário do estado civil do destino. Que injustiça! Um homem assim, cheio de méritos, que morre na força da idade sem deixar ninguém para carregar o seu nome. Isso constitui um terrível mau exemplo para os outros humanos. Não é nada encorajador para outras pessoas que queiram fazer o bem. Vamos entrar com um recurso junto a Sua Majestade Yan Lo. Processo seguinte!
Eu então me virei na direção de meu guia e perguntei:
— Desculpe minha curiosidade, mas não seria esse, por acaso, um dos tribunais do inferno? Se estou entendendo bem, significa que eu morri?
Ele pôs a mão sobre o meu ombro e me respondeu com um sorriso:
— Não fique preocupado, tudo vai dar certo, seu processo está em boas mãos. Você caiu no melhor dos 24 tribunais do Inferno. Juízes íntegros e escrupulosos. Como você está nos registros vermelhos, o das pessoas virtuosas em situação irregular, e como aqui não precisa de dinheiro para suborno nem incenso ou libação para influenciar os juízes, tem todas as chances de voltar para casa.
Enquanto eu esperava, trouxeram um mandarim que tinha uma roupa de seda e distintivos de jade de alto dignatário da Corte Imperial.
— Meirinho — ordenou o juiz. — Diga-nos a identidade e o passado terrestre desse réu.
O escriba abriu o registro de cor preta e leu o seguinte:
— Chen Li, ministro da Justiça do Império do Meio. Depois de ter feito intrigas para afastar injustamente um de seus colegas, a fim de usurpar seu lugar, usou seu cargo para se enriquecer e estender seu poder sem escrúpulos. Culpado de corrupção, seqüestros, falso testemunho, luxúria, tortura e condenação de inocentes. Ele morreu no seu leito sem manifestar nenhum remorso.
Os juízes deliberaram e um deles leu a seguinte sentença:
— O referido Chen Li, tendo desonrado sua profissão que lhe havia sido confiada pelo Filho do Céu, é condenado a sofrer todo tipo de suplício que ele infligiu aos seus semelhantes. Ele será detido durante quatro ciclos celestes ena cela nove vezes do Inferno, a fim de purificar seu espírito pelos cinco elementos. Ele deverá em seguida reencarnar na forma de um cachorro, depois na de um burro e finalmente em uma família miserável.
O ministro protestou energicamente, clamou inocência, invocou erro judiciário, gritou que iria apelar, ameaçou os juízes. Os guardas, demônios com cabeça de cavalo, de porco, de serpente, irromperam na sala, amarraram o preso numa cadeira. Um dos juízes dirigiu-se ao condenado nos seguintes termos:
— Saiba que todas as coisas que você fez e todos os seus gestos, foram registrados escrupulosamente nesses arquivos e nada do que acontece no mundo pode nos escapar. A lista de seus crimes e delitos, bem comprida, foi verificada minuciosamente, e por isso mesmo a instrução desse processo demorou mais de um ano. Saiba igualmente que a justiça do Reino das Sombras é implacável e imparcial. Todo mérito é cedo ou tarde recompensado, toda falta, sancionada. E para refrescar sua memória e para que você acabe com essas recriminações, tragam o Espelho da Verdade.
Um auxiliar tirou de uma caixa ricamente trabalhada o espelho de sua alma, onde o condenado pôde ver com horror estampado na face todos os crimes odiosos de que ele era responsável. Depois, com um leve gesto, o juiz deu uma ordem e os guardas levaram o prisioneiro. Nesse meio tempo, chegou um mensageiro. Ele trazia um rolo e o entregou ao presidente do tribunal, que o estendeu sobre a mesa. Depois de fazer um sinal para que eu me aproximasse, o magistrado declarou:
— Sua Majestade Yan Lo, Rei dos Infernos, levou pessoalmente seu processo até o Imperador Celeste. Sua Grandeza Sereníssima permite que você reencarne por mais dois ciclos duodecimais terrestres e concede também, por merecimento, a extensão de sua descendência.
O prefeito Dong, que contava essa história com uma voz fraca e tremente, levou a mão aos olhos e murmurou essa última frase, antes de cair novamente em sono profundo:
— Eu então desmaiei e acordei novamente há pouco na minha cama.
Quatro semanas depois, a jovem esposa do prefeito ficou sabendo que estava grávida e um ano depois da curiosa doença de seu marido, deu à luz um bebê encantador, que segundo alguns adivinhos, trazia os sinais característicos de uma pessoa predestinada.

13/12/2008 20:37





O observador observado

 Um leão foi capturado, colocado numa jaula e mostrado em público. Estava furioso. E pensou:

— Isso é o que de mais de desumano pode acontecer a um leão. Vou me vingar um dia.
Tempos depois foi levado para um safári aberto, de animais selvagens. E dessa vez eram os seres humanos que tinham de ficar dentro de jaulas, se quisessem se aproximar dos animais ou olhar em volta.
O rei dos animais achou que era a oportunidade perfeita de mostrar o seu ódio. Ele chamou seus súditos até as jaulas e disse a todos eles:
— Olhem, olhem! Essas criaturas são consideradas as mais sábias entre os seres vivos. Estão em jaulas. E nós, aqui, do lado de fora. O mundo mudou!
As pessoas nas jaulas estavam muito alegres. Já tinham visto uma quantidade enorme de leões nos zoológicos, mas nunca um deles, assim, tão forte e poderoso.
O leão nunca poderia saber que a habilidade de o colocarem na jaula significava o poder do homem, e que a habilidade dos homens se colocarem em uma jaula era a sua sabedoria.
 

 

13/12/2008 22:00





O tigre arrependido de Zhancheng

 Pu Songlin

 
Uma mulher muito idosa de Zhaocheng, com mais de 70 anos, vivia com seu filho único. Um dia, o filho estava andando numa montanha e foi devorado por um tigre. A mulher, cheia de dor, chorou durante vários dias e várias noites, e sofreu tanto que achou que iria morrer. Ainda chorosa procurou o juiz.
— Como pôr um tigre na cadeia e processá-lo?, perguntou o juiz, achando graça das exigências da mulher.
A mulher ficou mais furiosa ainda. O juiz tentou convencê-la, mas ela não queria escutá-lo. E continuou dizendo que ele precisava tomar providências contra o tigre. Cansado, o juiz pensou, pensou, e prometeu mandar prender o animal.
A velha ajoelhou-se aos seus pés. Recusou-se a deixar o tribunal enquanto ele não escrevesse num papel o mandado de prisão contra o tigre. Li Neng, um policial que naquele dia tinha bebido muito, falou que ele mesmo se encarregaria da prisão do tigre. Ouvindo isso, a mulher foi satisfeita para casa.
Logo que Li Neng ficou sóbrio, arrependeu-se. Mas ele disse para ele mesmo que o mandado de prisão era só uma astúcia do juiz para se ver livre do choro da mulher. Ele foi devolver o mandado ao juiz. E o juiz ficou muito zangado.
— Você prometeu prender o tigre. Deu a palavra e não pode voltar atrás.
Posto contra a parede, Li Ning implorou ao juiz que pelo menos lhe concedesse reforços para capturar o tigre. Seu pedido foi prontamente atendido.
Noite e dia, Li Neng e sua patrulha percorreram a montanha na esperança de encontrar o tigre. Em vão. No fim de um mês, sem resultado nenhum, o juiz ordenou que ele fosse açoitado cem vezes. Não sabendo mais o que fazer, ele foi a um santuário taoísta que havia no leste da cidade. Caindo de joelhos, implorou ao deus do lugar até perder a voz.
Foi nesse momento que o tigre apareceu. Li Neng reteve o fôlego, certo de que iria ser devorado. Mas o tigre passou a cabeça pela porta do pequeno templo e, olhando Li Neng bem nos nos olhos, sentou-se como se sentam os tigres.
Então Li Neng disse:
— Pô tigre! Se foi você que matou o filho dessa velha, me dá licença de te prender porque senão estou perdido.
E o policial, pegando uma corda, passou ao redor do pescoço do animal. O tigre baixou as orelhas e aceitou a corda em silêncio, e o policial o levou ao escritório do juiz. O juiz perguntou ao tigre.
— Foi você que comeu o filho dessa mulher?
O tigre disse que sim com a cabeça.
— Aqui, quem tira a vida de uma pessoa, deve morrer, disse o magistrado. É a lei, uma lei tão velha como o mundo. Além do mais, essa pobre mulher só tinha esse filho. Como ela vai conseguir sobreviver a partir de agora? Mas se você conseguir pegar o lugar do filho dela, para que não fique sozinha, suspendo sua sentença de morte.
De novo o tigre disse que sim com a cabeça. A corda então foi retirada e o animal saiu, enquanto a velha se lamentava, bem triste, que o juiz tinha libertado o culpado.
No dia seguinte pela manhã, logo que ela abriu a porta, descobriu um cabritinho morto na soleira. Ela pegou esse cabritinho e foi trocá-lo na cidade por diversos produtos. E no dia seguinte foi igual, e isso durou semanas e meses. Muitas vezes, em vez de caça, o tigre trazia na boca um corte de seda para um vestido ou algumas peças, sempre depositando diante da porta.
Assim a mulher acabou não passando dificuldades. Aliás, certas dificuldades por que passava eram facilmente resolvidas pelo tigre, o que não aconteceria se seu filho ainda estivesse vivo. Depois de algum tempo, o tigre começou até mesmo a se refestelar num puxado que ela tinha e a passar o tempo ali meio adormecido. Nem os animais nem as pessoas tinham mais medo dele.
Muito tempo depois, a mulher acabou morrendo e o tigre gemeu de um jeito tão triste diante da porta da casa, que partia o coração de quem o escutava. A mulher, antes de morrer, tinha feito muitas economias, para ter um funeral bem bonito e seus parentes se encarregaram de enterrá-la.
Logo que começou a ser lançada a terra na cova, o tigre inesperadamente pulou dentro, sem que ninguém esperasse. As pessoas em volta abriram espaço, com medo. Mas o tigre foi apenas se colocar diante do caixão e deu um rugido tão triste que todo mundo começou a chorar. Pouco depois o tigre foi embora.
Para esse tigre tão leal, as pessoas de Zhaocheng colocaram uma estela nas redondezas, ou seja, uma grande pedra, onde essa história é contada para quem quiser ler.

13/12/2008 21:53