A idéia e o sentimento da infância



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A infância no mundo ocidental

Sérgio Capparelli e Fernanda Albuquerque

Quando surge a idéia da infânciaQuando surge o sentimento da infânciaO mundo adulto separado do mundo infantilA mudança da criança para o mundo infantil



O Surgimento da Idéia da Infância

A preocupação com a infância é antiga , a partir de sua localização na família e na sociedade . Para Aristóteles, por exemplo , é impensável o Estado se imiscuir nas relações familiares pelo fato do filho ser sua propriedade e também um prolongamento de si mesmo , a partir da procriação (Youf, 2000 :12). Para ele , a alma das crianças não é diferente da dos animais , visto não se compor de sua parte racional . Ele não pode ter direito porque o direito de repartir bens só existe entre cidadãos e os cidadãos não são governados por um homem ou por um grupo de homens , mas pela lei . Ora , os cidadãos existem na polis, com alteridade entre os beneficiários . Na sociedade doméstica , onde vive a criança , essa alteridade não existe e ninguém vai querer prejudicar seus próprios bens porque estaria prejudicando a si mesmo  : « essa é a razão segundo a qual , para Aristóteles, não existem relações jurídicas no seio da família  » ( Id .12).

Essa criança , que só existe enquanto uma extensão do pai e que não constitui a necessária alteridade da relação jurídica , também não é problema nos séculos posteriores , pelo fato de ela não existir enquanto sujeito . Segundo Ariès, até o século XII ou XIII, inexistia na Europa o conceito de infância tal como ocorreu mais tarde , especialmente a partir do Iluminismo . E ser criança nem sempre foi sinônimo de fragilidade . A infância , tal como a conhecemos, é uma invenção da modernidade, concebida através de uma evolução cultural e histórica .

Até os séculos XVII e XVIII a criança era apenas a projeção do adulto em escala reduzida. Logo que ela se livrava da dependência física , misturava-se aos adultos , transpondo a juventude . As idades da vida correspondiam apenas a funções sociais , atividades delimitadas a partir do estado físico : idade dos brinquedos , da escola , do amor ou dos esportes , da corte , da cavalaria e, por último , a idade sedentária , dos homens do estudo . O movimento da vida coletiva ignorava as particularidades de cada período da vida do homem (Ariès, 1981).

A iconografia da época estudada por Ariès comprova esta ausência com as obras de arte dos séculos anteriores ao século XVII que recusavam veemente a morfologia infantil . Até o século XVII, conforme escreveu o autor , a criança era raramente representada. Quando apareciam, eram pintadas ou esculpidas como pequenos homenzinhos, com uma musculatura adulta . Durante a Idade Média , a maleabilidade e a plasticidade da infância eram contidas pelos artistas .

Outro fator determinante para esse desinteresse pela criança seria a tolerância ao infanticídio . O bem-estar dos filhos ainda não era prioridade para os pais . As crianças morriam por falta de cuidados , sufocadas pelos pais enquanto dormiam na mesma cama ou mesmo afogadas durante a cerimônia de batizado . "Perdi dois ou três filhos , não sem tristeza , mas sem desespero ", reconhece Montaigne (Motaigne, apud Ariès, 1981, p. 157).

A ausência de reserva moral diante das crianças é outro aspecto que interessa a Ariès em seu estudo . Os adultos não deixavam de falar grosserias ou fazer gestos obscenos em frente delas. E tais indecências , jamais toleradas pelo homem moderno , não chocavam o senso comum . Era , enfim , o costume da época . Aos quatro anos , por exemplo , Luis XIII já tinha uma educação sexual avançada , algo abusivo para os padrões morais atuais .A escola também negava as particularidades da criança ao misturar nas salas de aula crianças e adultos e ao não adaptar os ensinamentos de acordo com a capacidade intelectual de seus alunos .

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Nasce o sentimento da infância

Somente a partir do final do século XVII, admite-se que a criança não estava preparada para entrar na vida adulta e que deveria, portanto , seguir um regime especial . A palavra infância , enfim , aproximava-se do sentido moderno . As mudanças eram realizadas sob diferentes aspectos . Num primeiro momento , ocorreu o que Ariès chama de "paparicação", ou seja, a criança era tratada como um pequeno brinquedo ou animal de estimação usado para entreter os pais (Ariès,1998 :52). Steinberg e Kinchloe vão assinalar esse protótipo da família moderna já no século XIX, em que o comportamento propriamente paternal aglutina-se em torno de noções de ternura e responsabilidade do adulto pelo bem estar da criança (Steinberg e Kinchloe, 1997 :2).

As mudanças começavam, portanto dentro de casa , no relacionamento familiar . A "paparicação", sentimento superficial que Ariès reconheceu como o primeiro indício para o reconhecimento das particularidades da infância , era substituído por um sentimento mais profundo . Num processo de privatização da vida familiar , as pessoas começavam a se organizar longe da via pública , recolhendo-se em casa . Isso resultava num novo sentimento . A família passava a se envolver num espaço restrito, aumentando o convívio entre pais e filhos . "A família tornou-se o lugar de uma afeição necessária entre cônjuges e entre pais e filhos , algo que não existia antes " (Ariès, 1981, p. 11). Para o homem moderno parece ser incompreensível , mas , até o século XVII, o amor aos filhos não era algo óbvio .

Quando se descobre um mundo próprio e autônomo da infância , surge o afeto pela criança e os pais , então , começavam a preocupar-se com a educação , com a saúde a com a carreira de seus filhos . Adultos interessam-se pelos jargões infantis, utilizados pelas mães na comunicação com seus filhos , e também nas onomatopéias da criança que ainda não sabia falar . Educadores já não toleravam mais o despudor diante dos pequenos . Nascia a noção da inocência infantil . Ariès é um dos primeiros a assinalar o aparecimento da infância enquanto inocência (Ariès 1981 e 1998: 52 e 53), mas Postman vai dizer que essa inocência só existe a partir do aparecimento do sentimento de vergonha diante dos filhos , por parte dos adultos (Postman, 1999). E, com o avanço da medicina , as mortes começavam a diminuir e já não eram mais toleráveis do ponto de vista emocional .

De fato , o clima moral predominante até o final da Idade Média permitia uma série de atitudes com relação à infância hoje em dia consideradas descabidas, como a realização de gestos e práticas obscenas na frente de crianças , o uso de linguagem grosseira na sua presença e o contato sexual entre adultos e crianças . Foi só a partir do século XVII que sentimentos como o pudor e a vergonha começaram a ser incentivados na infância , e a criança começou a ser enxergada como um ser diferente do adulto , merecendo, portanto , um tratamento diferenciado. Seu caráter frágil , puro e inocente foi aos poucos enfatizado, e a criança foi progressivamente afastada das esferas adultas do mercado e da comunidade cívica (Ariès, 1998).

Vale ressaltar , entretanto , que mesmo quando se começou a entender a criança como um ser diferente do adulto , a infância ainda não era relacionada à idéia de inocência . De acordo com Ariès, a noção de ' criança inocente ' começou a se formar através da literatura pedagógica , contribuindo para justificar a necessidade de uma educação formal e continuada que viesse a preparar a criança para o mundo adulto . Outro fator central teria sido a emergência do capitalismo comercial e a formação da classe média , que começava a preocupar-se com a formação daqueles que dariam continuidade aos seus negócios no futuro (Ariès, 1998).

Henry Jenkins enfatiza que a concepção moderna de ' criança inocente ' é comumente entendida como universal , ou seja, natural à criança , independente do momento histórico e da cultura em questão . Entendendo a criança como livre de tentação e desejo sexual , ela desconsidera diferenças raciais , de gênero ou de classe . É como se a noção existisse fora da cultura , exercendo, entretanto , um papel importante na regulação de hierarquias culturais, ao separar , por exemplo , a influência negativa da cultura popular sobre as crianças do poder educativo conferido à chamada alta cultura . Percebendo a noção como um mito - um conceito que transforma o que é cultural em natural , de acordo com Roland Barthes - o autor enfatiza que a concepção moderna de ' criança inocente ' tem uma história , sendo formada por idéias de diferentes contextos histórico . Daí ter sentidos tão contraditórios ( cit. em Jenkins, 1998: 15).

O autor ainda ressalta que , embora nem todas as afirmações de Ariès estejam necessariamente corretas, a sua principal contribuição foi ter colocado as bases para o estudo da construção social da noção de infância e, particularmente , das idéias de inocência e pureza comumente associadas a ela . Segundo Ariès, essa concepção moderna resultou em dois tipos principais de comportamento em relação à criança : em primeiro lugar , justificou a atitude de proteção contra as mazelas do mundo adulto e, em especial , contra a sexualidade ; e em segundo lugar , estimulou a idéia de educá-la, desenvolvendo-lhe o caráter e a razão (Ariès, 1998: 56). Essas duas atitudes anunciam uma concepção bastante contraditória em relação à infância : ao mesmo tempo em que se quer proteger as crianças do mundo adulto , procura-se prepará-las para ele através da educação .

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O mundo adulto separado do mundo infantil

Quanto à progressiva diferenciação entre o mundo adulto e o infantil , Postman afirma que a noção de infância relaciona-se com o projeto iluminista e a idéia de escolarização, na medida em que se preconizou, ao longo da história moderna , que as crianças fossem retiradas das ruas e inseridas nas escolas , para que pudessem se ' civilizar ', aprendendo a ler e desenvolvendo sua racionalidade . Para o autor , a invenção da prensa tipográfica - e o desenvolvimento do processo de escolarização e alfabetização - teria separado aqueles que sabiam ler , ou seja, os adultos , daqueles que ainda estavam se alfabetizando , as crianças . Assim , a mudança teria transformando o estatuto social da criança , que passou a ser vista não mais como uma miniatura de adulto , mas como um adulto ainda não formado, contribuindo de forma determinante para a criação do conceito moderno de infância (Postman, 1999: 55).

Para esse autor , ao longo do século XVI, todo um novo ambiente simbólico foi criado - com novas informações e experiências abstratas -, o que exigia novas habilidades e atitudes , mas , principalmente , um novo tipo de consciência : a consciência adulta , marcada pela individualidade , pela capacidade para o pensamento conceitual , pelo vigor intelectual e pela racionalidade . Assim , nem todos viviam mais no mesmo mundo social e intelectual , pois a idade adulta havia se diferenciado, necessitando ser conquistada. Para tanto , os jovens teriam que aprender a ler : daí a reinvenção das escolas .

Vale lembrar , entretanto , que , até o século XIX, as crianças ainda costumavam trabalhar na lavoura junto às suas famílias . Porém , com o advento da classe-média e a crescente escolarização da população , o trabalho infantil passou a ser combatido pelas políticas públicas, contribuindo para a separação entre a vida adulta , suas regras e convenções , e a vida ' inocente e pura ' das crianças (Jenkins, 1998: 19).

Para Buckingham, a introdução da educação compulsória no final do século XIX foi um dos principais fatores a separar as crianças dos adultos e, nesse sentido , uma dos grandes pré-requisitos da concepção moderna de infância (Buckingham, 2000: 67). Ivy Pinchbeck e Margaret Hewitt acrescentam que "o efeito da educação formal organizada foi prolongar o período durante o qual as crianças ficavam a salvo das exigências e responsabilidades do mundo adulto " (Ivy Pinchbeck & Margaret Hewitt apud Postman, 1999: 56).

Já Karin Calvert define três mudanças centrais na concepção e na regulação adulta da criança americana entre os anos de 1600 e 1900. Em um primeiro momento , dadas as duras condições de vida , os índices de mortalidade infantil eram bastante altos , e a infância era vista como um estado de doença ou de vulnerabilidade física . As práticas de educação procuravam, portanto , apressar a auto-suficiência das crianças . Já no século XVIII, esse tipo de atitude mudou de forma importante , tendo em vista "a crescente confiança na racionalidade da natureza " . Sendo a infância vista como um período marcado pela saúde , a idéia não era mais proteger as crianças , e, sim , deixá-las crescerem livres e com o mínimo de intervenção possível . Entre os anos de 1830 e 1900, essa concepção mais positiva em relação à infância tornou-se ainda mais acentuada, passando-se a procurar prolongar e proteger esse estágio da vida marcado pela inocência dos ' perigos ' do mundo adulto (Jenkins, 1998: 17).

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A mudança das crianças para o mundo infantil

Com base nesses autores , é possível afirmar , portanto , que a categoria ' criança ' definiu-se através de sua exclusão de domínios públicos como o da política e o do comércio e da sua sujeição a instituições especialmente concebidas para supervisionar os limites entre o mundo infantil e o adulto : a escola e a família . Assim , entende-se que a idade de ouro da infância enquanto idéia de inocência e de preparação para o futuro durou cerca de cem anos , estendendo-se de 1850 a 1950 (Steinberg e Kincheloe, 1997: 2) e alimentando proteções progressivas a essa fase da vida . Buckingham (2000) ressalta, entretanto , que a chamada história da infância é, na realidade , uma história das representações culturais da criança , ou seja, dos sentimentos e idéias acerca dela, expressos na literatura , nas artes plásticas e em outras manifestações da arte e da cultura .

Essa percepção da infância vai transparecer nas medidas tomadas pelo Estado para proteger as crianças , tornando-as dependentes dos adultos e legalmente e removendo-as das esferas adultas do mercado e da comunidade cívica (Minow, 1996 :47) mas vai igualmente agir no imaginário dos adultos , fazendo dessa nova infância um espaço idílico num mundo em transformação. Dolto diz que no início do romantismo , o angelismo passou passa para o primeiro plano . Todos os poetas românticos cantavam a infância . Mas sua representação é pueril . Falta-lhe corporização. A criança é apenas o espectro frágil que evoca a origem divina do homem e o paraíso da virtude . Ao adulto , ele lembra a pureza primitiva , o aspecto mais nobre , o mais carismático da condição humana . Os romancistas do século XIX procuram colocar a criança no seu meio social e dramatizam a infelicidade de sua condição . Ele é vítima da sociedade , de bode expiatório a mártir , ele sobre todos os degraus do caminho da cruz (Dolto, 1981:46).

Mesmo que literatura se enternece diante da criança , mesmo que ela tome a criança como personagem de romance , a literatura do século XIX dá dessa criança apenas uma representação social e moral ou faz uma recreação poética sobre o paraíso verde perdido ou a inocência perdida : « Trata-se apenas de um discurso adulto sobre o que se convencionou chamar infância e a subjetividade é a dos adultos que idealizam sua própria juventude ( Idem  :47) ».

Essa passagem da criança , vista antes como mão de obra barata , fossem elas filhos legítimos ou adoções com finalidades práticas no trabalho do dia a dia , revela agora um sentimento diferente , antes desconhecido , pois a criança como a vemos hoje simplesmente não existia.

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